Oi :)

Por algum motivo particular da minha existência, esse blog encerrou suas atividades (temporariamente, quem sabe). Mas se você ainda me quiser ler,  existe um outro blog com coisas diferentes e, de vez em quando, pode até rolar um desassossego também. Vai lá: Não tô de brigadeira ponto wordpress ponto com.

Feliz. E só.

Parece clichê, mas escrever texto de ano novo pra mim é novidade. E o motivo faz parte do que eu tenho pra dizer.

Ano novo, querido, não é segredo: a gente nunca se entendeu. Eu tentei, te dei mais de 20 chances, te esperei, toda santa meia-noite, e você me deixou esperando e foi pra festa com esse monte de gente feliz. Não é que eu nunca fui convidada: mas de alguma forma nunca consegui chegar, ou entrar, ou participar.

Primeiro porque, feliz pra mim é mais que isso. Eu sempre fiquei perplexa, parada na porta, olhando uma festa que, deixando os detalhes ressentidos de lado, sempre me pareceu de mentirinha.

Em outras vezes eu me dediquei mesmo, quis até fazer minha própria festa, mas nem na minha eu consegui chegar. Paguei a festa, não fui e ainda rolou barraco. Ta de sacanagem, né?

Então, sem festa, sem glamour, eu esperei, contei os 10 segundos e você não veio coisa nenhuma.

Aí que eu resolvi ter um pouco de vergonha na cara. Quero que você saiba que, depois da chuva que você mandou bem na minha cabeça na última vez, eu não te espero mais.  A muitas horas da tão esperada meia-noite, comunico que minha festa já começou e o amor, a paixão, a esperança, a saúde e a amizade chegaram bem antes de você.

Se é que esse ano você vem, não vou nem ver. Mas se você trouxer dinheiro, faço um esforço e te dou outra chance. Um beijo de 2011.

Uma formiguinha.

Carregando um montão de coisas em direção ao ponto de ônibus, vejo três ônibus iguais passando. Perdi, três de uma vez. Mas acabo de sair da yoga e estou muito tranquila. Somente uma indignação mental e tudo bem, vou pra fila.

Na minha frente, duas pessoas juntas. Uma senhora e uma moça.
O onibus delas vem, para muito longe por pura sacanagem do motorista, mas elas nem uma indignação mental tiveram. Não correram, resolveram esperar pelo próximo. E a moça sai correndo para cumprimentar um menino que está fechando uma loja em frente, gritando “amigoooo!”. Depois de um tempinho, vem o menino e dá um chocolate pra moça. Ela se enche toda e admira o chocolate, “que delicia”.

Eu sorrio, ela olha pra mim, e depois diz à senhora: mas veja só que lindas estão as pessoas. Em dois minutos, me colocam nos ares. “Olha esse cabelo, que lindos cachos você tem, muito bonita você, e esse sotaque, de onde você vem? Mas que beleza, que alegria que você esteja tão feliz aqui”.
Sorrisos e sorrisos, quero abraçar as duas por tanta gentileza.

O menino da lojinha se vai de vez e cumprimenta a moça outra vez. Ela, de longe, comenta: “que lindo, ele. Olha esse cabelo”.

Meu ônibus vem, o delas não. Me abraçam e desejam muita, muita, sorte.
Vou embora arrepiada. E a verdade por trás de tudo isso é:

Numa terça-feira a noite, cruzei com uma dessas pessoas que nos dão vontade de ser alguém melhor.
Quis ser, pelo menos um pouquinho, como ela.
Uma moça pequenininha, gordinha, cabelinho liso e curto, com síndrome de down. Junto com a mãe, que traz escrito na testa “aprendi a ser mais feliz”.

30 puxões de orelha

Medo de envelhecer: não tenho, obrigada.
Sou 25 querendo ser 30 e achando essa a idade mais linda da vida.
E elas, de quase 40, me disseram,

Voce tá nessa fase, menina. Daqui a pouco voce vai ver, vai estar igual a gente, e nao é que a gente goste, a gente também não gosta não, mas o que é que vai fazer? Aí a gente sai com esses caras, que saem com todas nós e que um dia param de te ligar e você espera eternamente. E ele sabe, que quando te ligar, você vai. E você vai mesmo ué, o que é que vai fazer…

Minhas jovens, me desculpem. Não quero julgar a escolha de vocês, cada um nessa vida sabe o que vai esperar eternamente – e principalmente como vai fazê-lo. Mas eu, a de 25, quero ter a liberdade de, se é que vocês me permitem, acreditar que já não espero mais. Que sou a exceção e agora espero por ficar velhinha junto, por ter cachorros lindos numa casinha colorida, com cheirinho de comida e as mãos dadas cheias de rugas, sentados numa poltrona que só tem sentido ao lado da outra e tentando assistir o filme inteiro sem dormir. É isso o que vou fazer. Um beijo e boa sorte.

Uma perguntinha

Estou em um consultorio médico de mocinhas com uma revista Vogue nas mãos. Assim como me pego pensando em como será a vida de quem é muito muito rico, acabei de pensar em como será que deve ser a vida de mulheres tão tão lindas.

Porque ó, confesso. Queria um cabelo de princesa, uns pés mais bem pensados, uma coluna não prejudicada pela genética, uns quilos saudáveis a mais, uns peitos mais generosos, umas mãos menores  e, por favor, vamos parando por aqui.

Aos meus poucos 25 anos, já estou numa fase de aceitação bem agradável. Mas não tem jeito: eu, minhas amigas, minha vizinha, nunca vamos ser essas mulheres tão tão lindas (cá entre nós, não consigo ser amiga de uma tão tão linda). E não falo só dessas tão tão lindas dos editoriais da Vogue. Não tem nem duas horas que eu cruzei com uma tão tão linda aqui na rua em Buenos Aires. E cruzava no Brasil. E sei que vou cruzar com outras até o final dessa semana.

Então, queria deixar uma pergunta para alguma tão tão linda que eventualmente vier parar aqui. Como é ser você?

E não me venham com esse papo de que nenhuma mulher está satisfeita. É igual ao caso dos muito muito ricos – chega um momento em que você tem que aceitar quando se olha no espelho. Sou muito rico. Ou sou muito bonita. E se você for as duas coisas, me confesse por favor que, no mínimo, você é sem graça.

As melhores coisas do mundo

As melhores coisas do mundo, são, como você já pode imaginar, relativas. Algumas são realmente incontestáveis, mas pra que você entenda bem o conceito, vamos nos concentrar em detalhes bem característicos. A primeira lição é: não é exagero. Dito isso, vamos partir para exemplos claros e simples.

O palito de fósforo quente que eu gosto de apagar na gotinha de água da pia pra fazer tsssssssssssssssssss. É uma. E você vai entender bem, porque, por acaso, também gosta.

Quando eu faço banana amassada, coloco farinha láctea e depois mel. Deixo o mel escorrer da colher em um fio bem fino, e aí vou passando o fio pelo farinha e ela magicamente se enrola no mel. É sensacional.

Cinco gotas de própolis no leite quente com achocolatado – o sentido da vida muda nesse instante.

Conseguir acender o aquecedor de 1815 de primeira, uma vitória que eu nunca me canso de comemorar.

Essa não sei se vai dar pra entender, mas não errar nenhuma vez na hora de fazer o “rabinho do delineador” é praticamente ganhar na loteria da beleza.

Abrir o e-mail exatamente na hora em que ele chega. É meio que uma sensação de ter ganhado muito tempo na vida. Confuso e bem coisa de “addicted”. Mas quem sabe te ajude a entender.

Comer cereais bem rapidinho pra não dar tempo de o leite amolecer os flocos de milho, porque aí não fica mais crocante.

Encerrado os exemplos, eu te comunico que você pode se considerar muito privilegiado por eu te dizer que é, também, o melhor do mundo. Não por minha causa, é claro. Mas na minha opinião, pra alguém estar na mesma categoria do barulhinho do fósforo na água, da farinha láctea enrolando no mel e até do e-mail lido quase em tempo real, você não é,  definitivamente, um exagero. Você me entende?

🙂

Quem mexeu no meu conto de fadas?

O príncipe encantado caiu do cavalo. Se sujou na lama e saiu andando assim mesmo: sujo e machucado. Deixou o cavalo pra trás e saiu pisando forte. “Quem quiser ser princesa agora vai ter que andar atrás de mim”, esbravejou e foi andando sem olhar pra trás. Não sei se foi a queda e nem sei quem ou o quê fez esse príncipe cair, só sei que agora é assim: príncipe não é mais uma belezinha de pele lisa e cabelo penteado.

Não sei o que os belezinhas de cabelo penteado passaram a ser, mas vou te contar que na verdade eu não ando dando muita bola pra eles pra poder te dar essa informação. Ando olhando pra onde não devia. Pra essa camiseta vermelha e suja de lama que me faz esquecer do que mamãe ensinou. Não, não tô vendo a namorada do lado dele – se ele mesmo não olha, não sou eu que tenho que fazer. Ele é o cara que não serve pro futuro, mas o futuro anda tão chato que eu prefiro ficar com esse presente absurdo. Errado, é o que ele é.  Eu sei lá qual é a lógica psicológica dessa minha nova monarquia, só sei que tá tudo errado.

Onde é que já se viu príncipe encantado que faz perder o juízo, que faz meu sono ir à loucura e que dá aquele frio na barriga na hora de apresentar ou de contar pros amigos? Não era pra ser encantado? Não era pra sempre abrir a porta do carro, pra dar flores e pra ser perfeito? Cadê a perfeição dessa vida injusta de princesa?

Eu não sei. Tá tudo muito estranho e, se a fada fugiu dos contos, ela ta bem longe de voltar. Então eu aproveito a ausência pra pedir pra quem ficou tomando conta: deixem os nossos príncipes fora dos seus devidos lugares. Não precisa espalhar, mas eles são bem melhores assim. O encanto perdeu o açúcar e ficou difícil de enjoar.

Inspirado em uma amiga que anda encantada com um príncipe errado. E em mim. E em você também.

Está proibido Frank Sinatra como trilha sonora

Eu vou dizer logo: acho sacanagem. Acho mesmo e é bom que todo mundo fique sabendo.  Então é o quê? Todo mundo é sacaneado na cara dura e tem que ficar a vida toda se fazendo de superior? Por favor. E antes que levantem a língua para dizer que é inveja, também digo logo que nem é pela beleza. Tá certo que não me cairia mal um desses, mas estamos falando de outra coisa. Estamos falando aqui de uma ousadia inconveniente que entra sem pedir licença, sem bater na porta, sem precisar sorrir e sem perguntar se o lugar está ocupado.

E aí apronta o diabo, me deixa falando sozinha sem saber onde a conversa terminou, volta quando eu já tinha conversado um milhão de outras conversas, e faz isso numa quantidade de vezes que não sei dizer – porque não tem fim. E eu continuo hipnotizada. E conversando com você como se nunca tivéssemos conversado antes – ou como se a conversa anterior nunca tivesse sido interrompida. E isso é o quê? É sacanagem. Não sei se a culpa é sua, do seu pai, da sua mãe ou de Deus. Mas é sacanagem.

Então, sem olhar pra você, te peço encarecidamente e sem me preocupar se estou sendo doce: leve esses olhos azuis pra longe de mim.

Não

Por que não? Podia dizer uma lista de porquês não. Uma, duas, dez listas. Frente e verso num papel A1. E se der pra ser por e-mail, te mando um pdf recheado. Porque não chegou a hora. Porque ele não é o que eu imaginava. Porque é um absurdo. Porque não sou disso. Porque não é o que eu estava pensando. Porque está tudo errado. Porque pelo amor de Deus, só eu estou vendo que isso é uma furada? Porque convenhamos, não vou me rebaixar a tanto. Porque não preciso disso. Porque é exatamente aquilo que eu disse que nunca faria. Porque já passei dessa fase. Porque se nem nessa fase eu fazia uma coisa dessas, não é agora que vou fazer. Porque tenho mais com o que me preocupar pra ter que arranjar uma dor de cabeça desse tamanho. Porque para pra pensar: preciso? Não preciso. Porque tem mais coisas entre o céu e a terra. Porque posso perder uma oportunidade de fazer o que é certo gastanto meu tempo com uma besteira dessas. Porque ele tem que ser mais. Porque eu não nasci pra isso. Porque eu quero mais. Porque veja bem: você acha mesmo que é suficiente? Porque tudo bem, eu concordo, não me faria tão mal. Porque é lógico que eu estou aqui até agora porque espero do fundo do meu coração que a perda de tempo não seja tão grande. Porque sabe como é, foram umas taças de vinho e tudo bem, um talvez, um pode ser, um quem sabe. Por que não, né?

Pick one

Para o rapaz da portaria que abria a porta pra ela sair todos os dias, ela era a menina sempre atrasada – ou que parecia estar. Pro gato cinza que a via do outro lado da calçada, era uma blusa de lã boa pra enroscar as unhas. Assim que virava a esquina, para o senhor árabe da primeira loja era alguém que sempre olhava a vitrine de doces mas nunca entrava. E ele sempre ajeitava os doces um pouco melhor pra ver se dessa vez ela se convencia.

Descendo para o metrô, a senhora que pedia roupas e calçados numa plaquinha só pensava no casaco que ela tirava assim que saia do frio da rua – o casaco que ela poderia muito bem deixar como doação. A moça da bilheteria sabia bem quem era ela: alguém que comprava uma viagem por vez para ter troco em moedas.

Ninguém tinha dúvida. Nem o rapaz, nem o gato, nem o árabe, nem a senhora e nem a moça da bilheteria. Mas bastou dar de cara com ele no vagão do metrô em mais um acaso infeliz pra que ela, a atrasada, a blusa de lã, a indecisa pelos doces, a dona do casaco e a espertinha das moedas, começasse a se perguntar de novo: e pra você, quem sou?

Ele fez uma cara de surpresa, abriu um sorriso e disse um oi enorme. Ela já tinha sido a menina dos sapatos coloridos, a menina que tinha a risada abafada, a que descobriu seu fanatismo por balas de caramelo, a que consegue digitar muito rápido com apenas dois dedos e a que o fazia rir enquanto cozinhavam. Nada era suficiente, então ela sempre tentava ser mais uma de si mesma. Já estava se perdendo no meio de tantas e, dessa vez, escolheu uma diferente: foi a que não sorriu, não se surpreendeu e respondeu um oi curtinho, procurando um lugar pra se sentar e ler o jornal. Nesse exato momento ele se lembrou de todas. E ela se esqueceu dele.

O maior dos canalhas

Vai, pega esse pão que nem é de hoje e joga no chão virado para baixo. Me faz perder o ônibus, faz cair a maior chuva do ano no dia em que eu escolhi uma roupa branca e curta. Desliga meu despertador, quebra meu carro e me faz esquecer a carteira na hora de pagar a conta. Desencontra meus encontros, perde meus documentos, me faz sentar no molhado sem perceber e extravia minha bagagem. Mancha minha roupa pela manhã, arrepia meu cabelo, quebra minha unha e descasca meu esmalte vermelho. Corta minha internet, faz meu computador travar na melhor parte da conversa e perde meu texto que está quase no fim.

Mas devolva aqui meus suspiros, os olhares mais pra dentro que já vi, os guarda-chuvas divididos, o edredon que sempre esquenta, o prato que é sempre melhor, as mordidas que quase machucam e os dias mais divertidos.

Querido Murphy, você é um sacana.

Estamos entendidos?

Eu não me arrumo pra elas. E me sinto desrespeitada quando insistem em repetir isso pela 9382ª vez em alguma matéria de revista, programa de televisão ou conversa de bar. Porque parece que virou uma verdade universal.

Então presta bastante atenção: não é nada disso.

Odeio passar a tarde toda em salão, mas fico o dia inteiro no meu salão caseiro e particular tentando acreditar que vai fazer alguma diferença. Mas é pro seu inconsciente dar o ok quando você passar a mão no meu cabelo. Invento um esfoliante maluco pra minha perna que insiste em não se entender com os pelos, só pra sua mão não perder o foco quando passar por aqui como quem não quer nada. Se somar tudo o que estou vestindo, dá uns bons meses pagando fatura de cartão – e olha que não vou reclamar e nem achar ruim de dividir a conta no final da noite. Eu sei bem que você não vai saber responder a uma pergunta do tipo “qual maquiagem eu estava usando ontem?”, mas eu perco uma partezinha de vida na frente do espelho porque sim, faz diferença.

E depois de tudo, me empenho pra não deixar todo esse ritual fazer eu me atrasar. Até me adianto pra você pensar que sou linda assim mesmo, sem esforço. Mas do fundo do coração espero que você reconheça e me dedique os devidos méritos quando encostar o nariz no meu ombro e reconhecer a lembrança de um cheirinho de hidratante.

Você desmarcou essa merda desse jantar e eu me sinto uma idiota com esses cachos brilhantes e comportados, a perna lisa, a roupa quase vestida e a maquiagem já feita. Não tem “ela” que assuma a culpa por isso. Era tudo pra você, e sua desculpa foi tão boa que não posso acreditar que vou fazer tudo de novo da próxima vez.

Pedacinhos

Com papel de cartas eu ficava perdida.
Ainda assim, consegui levar a sério e não consigo me lembrar bem como foi que consegui fazer uma pasta tão cheia e que tinha até algum tipo de organização. Mas era inútil, ninguém mandava cartinha em papel de carta. Eu não mandava. E também nunca recebi nenhuma.

Acho que começou assim.
Minha coleção de todas as coisas.
Não termino nenhuma delas, mas acho que a graça de toda coleção é nunca ter fim. Tenho uma que saiu do meu controle. Ganhei tanta contribuição que de repente eu tinha mais de 350 postais publicitários. Desisti.
Tenho uma que é bonita. De coisas de casamento, mesmo sem ter certeza de que quero casar. Coleciono tudo numa pasta de computador e em links salvos na internet. Tenho também uma coleção de uma coisa só. É uma vespa. E é a coleção que mais gosto.

Outro dia achei você. E comecei a colecionar seus pedaços.
Tenho um pedaço seu que abriu a porta do carro pra eu entrar. Um pedaço que eu adoro cantou vinícius bem baixinho. Outro pedaço me fez um desenho. E tem também um que me ligou de novo e de novo só pra saber se estava mesmo tudo bem (depois de alguma coisa que eu já esqueci porque não guardei nenhum pedaço).

Tem uns pedaços meio tortos, desses que a gente guarda e não sabe nem pra quê, mas nunca consegue se desfazer porque parece que os pedaços bons fazem mais sentidos se esses estiverem junto. Como aquele que tem sua cara de mau, ou o que tem uma conversa inteira que quase virou uma discussão. Gosto dele. Até os pedaços em que você se hipnotiza por uma televisão qualquer que está ligada em algum lugar. Esses ficam no fundo, pra eu não ficar nervosa.

Tem um pedaço grande cheio de outros pedacinhos. É tipo um mosaico. Banho gelado, vento na janela, praia, música boa, um crédito infinito de massagens, muita escadaria e bateção de perna. Como todo mosaico, ele não faz sentido. E é por isso mesmo que essa coleção é tão boa: ela não faz sentido algum.

Quando penso no que pode acontecer, lembro sempre.
Não posso colecionar você.
Mas esses pedacinhos são meus.

Amarelo quindim

Tudo parecia certo. Ela arrumou a sala toda. Porque tinha que ser assim. Escolheu aquele dia numa inspiração que veio de uma revista, de um site, de algum link que alguém mandou e ela salvou nos favoritos da vida. Tinha tudo. Amarelinhos, luzes de natal no meio do ano, uma comidinha, o vinho que ela aprendeu a beber. E ele.

Marcaram às sete e já estava tudo pronto. Se deitou no sofá e se encheu de perguntas, já sabendo a resposta e perguntando só pra se satisfazer. Como quem vê um dia ensolarado e pergunta “tá sol, né?”. Se perguntou se era ele. Se perguntou se tinha chegado a hora. Se perguntou o que é mesmo que ela queria. E se respondeu.

Sempre quis que fosse alguém que soubesse cozinhar. Sempre quis que tivesse os melhores abraços, que fizesse o cafuné mais exato, que tocasse violão e tivesse uma voz grosseira e linda. Quis que soubesse tirar fotos, pra ela poder guardar o jeito como ele via o mundo. Quis que soubesse fazer massagens fabulosas e disponíveis a todo tempo, pra curar cada mundo que ela carrega nas costas – porque ela sempre ia carregar algum. Quis que fosse bonito, pra ela perder o fôlego pro resto da vida.

Ele chegou. Eles jantaram. Eles riram. E em certo momento, ele perguntou: você sabe o que é que você quer? E ela sorriu, esperta, porque essa ela sabia responder. E repetiu.
Repetiu a comida, os abraços, o cafuné, o violão, a voz, as fotos, as massagens, a beleza. Olhando pra ele e pensando em toda a certeza daquele dia.

E ele, com um sorriso torto, disse: Eu só quero que seja você. Tá?

E ela viu a certeza ir embora. E entendeu que faz parte do amor não ter certeza de nada. E ser feliz assim.

Este título foi censurado

Vai, vamos lá. Por onde a gente começa?
Você tá indo bem, tá no caminho certo.
Aproveita que eu tô facinha. Dessa vez vou liberar geral. Pode abusar, vai, a porta ta aberta e é só ir entrando.
Se tiver perdido posso te dar uns toques, tenho experiência, sei o caminho pra gente chegar lá. Na verdade não tem muito mistério.
Você tem potencial, vai ser fácil.
1, 2, 3 e já.
Ah, qual é? Não me decepciona.
Não fez nem cosquinha.
Vou fechar os olhos, fingir que não aconteceu nada e você tenta de novo. Ok? Ok.
O quê? Já foi? Tem certeza? Acho que não, heim. Tô ficando com sono.
Olha só, tenho um histórico bom aqui que você pode consultar. Esse aqui mandou muito bem. Tem esse também ó, foi genial, mas precisa de muito treino, acho que você não dá conta. Melhor começar por… esse aqui, acho que você consegue.
Vê se faz o negócio direito, não pode chegar derrubando tudo, tem que ir com calma, cria um climinha, tem que ter uma situação, senão perde a graça.
Tô te dando tudo na boquinha, mas quero ver resultado. Fica a vontade que depois eu te digo se deu tudo certo.
Vê se não esquece de nada: quero coração partido, muita lágrima, uma semana de fossa, uma lista de músicas que não vou conseguir ouvir pelos próximos cinco anos e umas quatro mulheres que vou amaldiçoar pelo resto da vida.
Se conseguir tudo, aí sim, eu espalho pra todo mundo que você é o cara.

83 e contando

Era rotina. E era só dele. Era a companheira, não mais leal e nem mais fiel, mas era de quem ele não abria mão. Não podia ser assim tão difícil de ser entendida. Horários são para serem seguidos. A hora de acordar, a hora de almoçar, a hora de pegar o jornal na frente de casa. Objetos têm o seu lugar. As comidas têm sabores que devem ser respeitados, o queijo tem o seu ponto certo, o pão tem uma cor exata, o sal tem um limite.

Já tinha algum tempo que tudo estava meio fora do lugar. Nem sempre os chinelos o esperavam na posição correta. Muitas vezes nem mesmo estavam ali. Perdiam-se pela sala, se separavam, um no banheiro outro embaixo do móvel do corredor. Mas que raios, agora criaram vida própria? Os cheiros mudaram. Todos eles. O da comida desapareceu. O das roupas ficou confuso, além de elas não estarem mais alinhadas, ou combinando ou sequer passadas – como foram a vida toda.

Naquele dia não foi diferente. E estava tudo explícito. Quando acordou, viu que acordou errado. Não havia barulho de panelas na cozinha para dizer: acorde. A roupa de cama estava vencida, e ele nunca pensou na roupa de cama ao acordar. Nem ao acordar e nem em nenhum outro momento. O telefone tocou e não tinha ninguém para atender. Nunca precisou ouvi-lo tocar tantas vezes, e nunca soube como era irritante.

Era um deles. Algum filho, algum sobrinho, algum neto. Não fazia diferença, porque eles estavam cada vez mais iguais. Perguntavam: está tudo bem? E nunca estava. Tem sido difícil, não me acostumo com a comida, acho que não duro muito, vocês não me visitam mais, está doendo um outro lugar aqui na perna direita, a moça nao sabe fazer as coisas direito e é, mandei embora mais uma, o sono está complicado, o cachorro acho que não vai bem, esse portão emperrou de novo, os vizinhos estão barulhentos. E sempre diziam: mas o senhor está reclamando demais. Então agora passou a dizer que sim, estava tudo bem – enquanto sentia a fisgada no tornozelo.

Colocou o telefone no gancho, sem ver que não colocou direito – e ele ficaria assim por três dias. A roupa confusa, a blusa que se bobear era do pijama, com a calça que já durava duas semanas, o chinelo com meias e o cabelo despenteado. Saiu e caminhou, devagar, até a feira. Atravessou, devagar, todo o caminho até a barraca do pastel. Procurou se encaixar, mais devagar ainda, no meio de tanta gente, pensando que aquele lugar já não era mais o mesmo e que as pessoas estavam cada vez mais mal educadas.

Um de queijo, disse ao menino. Era o primeiro dia do menino, que estava com pressa em atender, alcançou o pastel e entregou, meio torto e bem desajeitado, com os guardanapos embolados, correndo para dar atenção a um homem gordo e que parecia ser muito rico. Pegou se lamentando, ajeitando o pastel com todo o cuidado. Não demorou muito e encontrou orégano. Orégano no pastel de queijo? Não, não pode. Mostrou ao menino, que olhou com desdém, trocou o pastel e entregou a ele, com pressa mais uma vez. Esse estava frio. Tentou chamar o menino, que não o viu, ou fingiu não ver. Psiu, menino. Nada. Aqui, menino! Nada. Juntou seu fôlego para dizer um pouco mais alto, com sua voz rouca: Mê vê um de presunto. Colocou o pastel frio em cima do balcão. Veio o de presunto. Colocou, lentamente, o de presunto junto ao pastel de queijo, frio. Um de palmito, por favor. Juntou aos outros. De frango, tem? De carne também. Enfileirou os pasteis lado a lado no balcão, e as pessoas começaram a olhar. Por fim, disse, já tendo a atenção do menino: De quê mais você tem aí? Faltou o de camarão. Juntou todos, intocados, limpou os dedos e foi embora, com toda sua calma e lentidão.

O menino gritava. Pensou em correr, estava sem ação. Chamou de louco. Todos olharam em volta e diziam “deve estar caduco“, “…gagá, pode apostar“. Todos interromperam os seus pastéis, para ver o velho e o balcão. O homem gordo e rico, vendo o desespero do menino, aproveitou para reter a atenção. Tirou o dinheiro e disse, Tome aqui. Cuidado com esses tipos, garoto!

E eles voltaram a comer.

Ouvindo tudo o que diziam, ja que andava bem devagar, ele se fez de surdo. Mas pensava, sozinho, que isso já era demais. Me deram um resto de vida, iniciaram minha contagem regressiva, decidiram que não posso mais escolher, me declararam no fim da linha. Se consideram mais espertos, ignoram minha vida inteira e vejam só, esperam que eu me adapte à falta que ela me faz. Ela, que colocava meus chinelos no lugar, que trocava os lençóis, que cuidava das minhas roupas e que deixava vocês bem longe de mim. Já tenho muito com o que me conformar. É demais que queiram tirar também o meu pastel.

O homem dos 9 andares

Te conheci assim que me mudei pro prédio novo. Um cara que eu conheci quando fui pegar a correspondência, um cara que eu conheci porque me ajudou a carregar as compras, um cara que arrumou as coisas elétricas lá de casa, um cara que interfonou no meu apartamento porque esqueceu a chave e não tinha como entrar. Você foi todos eles. Te conheci um monte de vezes, e a última foi quando você bateu na minha porta pra perguntar se eu tinha todas as temporadas de uma série antiga baixadas. Nos dias em que pegamos o elevador juntos, eu te conheci de vários jeitos. Sabia que às segundas você estava sempre atrasado e, de repente, eu estava me atrasando de propósito só pra te ver. Eu disfarçava saindo correndo e pegando o elevador quando ele já estava quase descendo pra parecer que eu estava ainda mais atrasada que você – de vez em quando não dava certo e eu perdia o elevador, e de vez em quando eu perdia mas quase conseguia, e te via lá dentro tentando fazer a porta abrir de novo, frustrado porque deu errado. Quarta era o seu dia de mau humor e o seu bom dia virava um sorriso automático sem mostrar os dentes. Em alguns sábados saímos juntos pra jantar. Ou fomos pra um barzinho, uma festa, ou cinema. Eu deixava pra saber o lugar quando cruzava com você no estacionamento e via a roupa que você estava usando. Quando fomos jantar, o seu cabelo estava molhado e você estava usando camisa rosa clarinho. No barzinho era uma camiseta muito bonita com umas coisas escritas que não deu tempo de ler. Na festa não sei, porque só senti seu cheiro no elevador. E era cheiro de perfume de festa. No cinema, eu fiquei brava, porque você tava de chinelo. E você disse que era só um cinema.

As coisas começaram a esfriar depois daquela sua primeira viagem. Eu não emendei o feriado e você simplesmente se mandou. Desceu pro litoral, levou sua prancha, seus 10 óculos escuros que te deixam ainda mais bonito e foi. Você e seus amigos que eu não suporto e que olharam pra mim descaradamente no elevador, no dia em que fomos pra um churrasco, ou pra um aniversário, ou pra qualquer lugar – fiquei com tanta raiva que esqueci de decidir pra onde a gente foi.

Na vez da viagem, te perdoei. Perdoei também quando você saiu sem mim. Perdoei quando esqueceu do meu aniversário e quando deu uma festa e não me chamou. Perdoei a loira natural, a loira platinada, a gordinha bonita, a japonesa que batia na minha cintura e a morena com um pé na baixaria. Quando ia perdoar a ruiva, ela voltou. E entrou no meu elevador, assistiu minhas séries, deu fim aos seus chinelos, atrasou ainda mais suas segundas-feiras e levou embora o mau-humor das quartas.

Quis conversar e acabar com tudo de vez quando nos encontramos naquele final do dia. Eu chegando tarde do trabalho e você chegando tarde da sua ruiva. Nove andares intermináveis e o elevador ficou maior do que costumava ser. Eu olhei pra você em todos os segundos e você pareceu não me ver. Pensou nos seus amigos idiotas, na nova série que estava baixando sem mim, nas suas viagens e na sua ruiva. Acabei com tudo de vez e você não ficou sabendo. Conversei com você por horas e no final enterrei nossa conversa no mesmo lugar onde estavam enterrados nossos cinemas, nossos encontros, nossos episódios pendentes e tudo aquilo que você não conseguiu ser. Troquei o elevador pelas escadas. Troquei você por mim.

Merthiolate não arde mesmo?

Não é com orgulho e nem com vontade que vou dizer isso: você não me doeu.

Eu me ralei inteira, tô cheia de casquinha e com pressa em arrancar todas. Mas vou repetir. Você não me doeu. Não sinto doer você, nossas conversas, nossos silêncios, nossas mãos, sua barba, nossas piadas ou coisa parecida. Bom, não é?  Não? Não.

Você não me doeu, mas mesmo assim dói. Dói e não é dor que dá ouvindo alguma das 3567 músicas que tem a ver com a gente. Não é dor que dá na hora que passa o filme que você disse que eu tinha que ver de qualquer jeito. Não é dor que dá quando alguém diz alguma coisa que eu já sabia, porque foi você que me contou.

Já que você não me dói, a gente podia ser do tipo que “tudo bem”. Tudo bem, a gente pode ir tomar uma cerveja. Tudo bem, a gente pode fazer qualquer uma das coisas que planejamos e que não aconteceram ou fazer de novo as que a gente não cansava de fazer. E se não sair como o planejado e acabar onde não deveria, tudo bem também. Mas não tá tudo bem, porque dói.

E se não é você que me dói, só tenho uma conclusão: quem me dói sou eu.

Falsos cognatos

Eu desculpo quem esbarra em mim na rua. Desculpo quem erra o meu nome. Outro dia desculpei um rapaz que furou a fila. Mas ele era bonitinho. Fingiu que tinha sido sem querer e eu desculpei as covinhas e o cabelo desarrumado dele.

Eu desculpo quem me atende mal. Fico remoendo, mas acabo voltando se eles parecem arrependidos. Um dia contaram um segredo meu. Eu desculpei. Nunca mais contei outro, mas desculpei. Tá bom, né?

Mas e você? Você me desculpa o tempo todo. E vai me desculpar quantas vezes for preciso. Você foi o meu músico favorito e que cantava pra mim na hora que eu quisesse. Você não esbarra em mim na rua, não erra o meu nome e não fura a minha fila. Desculpar é o quê? Dizer que desculpa? Te desculpo. Nunca poderia não te desculpar. Mas não mudou nada. Vou dizer de novo: te desculpo. Viu? Nada aconteceu.

Sabe o que é? Não tenho uma solução pra isso. Queria que fosse tipo penitência. Vou te mandar dar três pulinhos, correr em volta do quarteirão, mastigar pimenta, sair na rua de pijama e ta tudo resolvido.

Isso deve ser como essas diferenças que a gente encontra o tempo todo entre coisas que parecem iguais. A diferença entre sentir falta e sentir saudade. Paixão e amor. Esquecer e não lembrar. Escutar e ouvir. Essa aqui é mais uma: eu te desculpo. Mas não consigo te perdoar.

E eu gosto das jujubas vermelhas.

Não sei se já te contei. Mas quando fomos ver aquele filme que você esperou tanto pra ver e eu dormi, tava tendo o show de estreia da banda de um grande amigo meu. Na verdade não sei nem se te contei que dormi. Não importa. Você adorou o filme. Mas eu dormi.

Eu não sei também se você sabe que eu prefiro os pães de queijo mais queimadinhos. Mas você descreve com tanta perfeição o gosto da parte queimada que eu não consigo tirar isso de você.

Eu não posso pegar chuva. Fico gripado imediatamente. Mas você fica tão bonita e tão feliz tomando chuva comigo que eu tenho que mentir, toda vez. Não foi a friagem que eu peguei voltando do trabalho. Não foi o ar-condicionado do trabalho. Não foi a falta de vitamina C. Não peguei do meu irmão. Foi a chuva que você me fez pegar.

Eu nunca te mandei flores. Eu nunca abri a porta do carro pra você entrar. Muitas vezes esqueço de te oferecer minha blusa quando você diz que está com frio. Não reparo no seu cabelo quando você corta, na cor das suas unhas toda semana, no seu batom novo ou na blusa branca que você ta usando. Pra mim ela é igual à blusa branca que você usa sempre. Mesmo que não seja uma e que você vá me dizer que são várias. E se você perde um quilo, ganha dois e depois perde outros cinco, também não consigo saber.

Minhas declarações de amor são assim. No pedaço do frango que não como porque você gosta muito. É, a coxa do frango. Eu também gosto. Ou então a blusa rosa que odeio, porque sou homem e tenho dessas frescuras. Mas eu uso, porque você parece me amar mais quando estou usando. É assim que eu amo você. Entendeu?

Texto inspirado por um amigo. Que diz que, apesar de não fazer tantas coisas fofas pra namorada, sempre deixa de comer as jujubas boas pra comer só as roxas, que são as que ela não gosta.

Borboletas no estômago.

Parece até que é a primeira vez.
Me arrumo como se quisesse te surpreender pra você pensar que eu sou a mulher mais bonita do mundo, como se nunca tivesse visto minhas versões mais lindas e mais feias. Me equilibro no salto de uma forma impecável, pra você se esquecer que na verdade eu preferia estar descalça.
Faço charme, me atraso e finjo não ligar se você atrasa muito mais que eu. Acredito na sua desculpa, que nem prestei atenção em qual era – você ja tinha usado todas. A chuva, o trânsito, o carro, as obras, o trabalho, a reunião, a roupa que sujou. Era uma dessas.
Me deu um frio na barriga quando vi você chegando. Todo mundo reparou em você, como sempre repara. Os homens se curvam naturalmente e te cumprimentam, abaixam a cabeça e desviam o olhar em sinal de respeito. As mulheres te olham de canto de olho e eu me encho de vaidade porque é comigo que você vai se sentar.
Fiquei nervosa o dia todo. E nos trinta segundos que se passaram desde que você entrou no restaurante até se sentar, quase explodi de nervosismo. Durante o dia todo me preparei. Fiz as unhas, o cabelo, me depilei, escolhi muitas opções de roupa, acabei comprando uma nova, fiz as sobrancelhas, usei um batom que estava com dó de usar pela primeira vez. E nesses trinta segundos me dei conta de que você, na verdade, nem ia reparar.
Pensei nos melhores assuntos para a nossa conversa. Me informei sobre coisas que podiam te interessar. Li seus jornais e acessei os seus sites favoritos. Decorei alguns números, alguns nomes e alguns trechos para causar uma boa impressão. Há tanto tempo não saía para jantar, que estudei um pouco sobre o restaurante e os pratos também. Tudo pra você, no final das contas, conversar comigo sobre cães, sonhos (os que se tem dormindo) e sobre o cheiro bom que tem os amacientes de roupa. E também pra acabar pedindo a comida por mim. Eu sorri e me encantei ainda mais.
E depois de tudo isso, respirei fundo e construí um sorriso sereno e compreensivo. Você esqueceu, mas eu vou fingir que também não me lembro. Hoje nosso casamento completa 30 anos.

Aplicação numa frase.

Uma amiga me deu de presente. Ela disse que tinha uma coisa pra dizer sobre mim e não conseguia lembrar. Quando lembrou, ela me deu. Vomitou um monte de letras confusas, embaralhadas, que você tem que silabar na hora de escrever. Me deu, e a sensação que tive foi de resolver um problema, daqueles que você martela pra resolver durante muito tempo e de repente alguém aparece e diz: é assim. Luiza, você é desassossegada. Então é isso? Desassossegada. É ruim de escrever. Da preguiça. Aposto que você tem também. Escreve aí: desassossegada. Não deu vontade de desistir no meio? Eu sei que deu. Ela não quis explicar. Não tentou, fez parecer que não tinha nada pra ser explicado. Então eu aceitei.
Não deixo de me questionar: ela disse, mas ela não viu. Só sabia que servia. Eu também soube. E aí tem sempre aquela blusa que você ganhou de presente, que até gostou mas nunca soube como usar. E quem te deu diz “não gostou, nunca usa”. Então eu vou usar, pra ela saber como é.
É uma inundação. Não me afogo, vou pra cima e fico surda, como quando você entra embaixo d’água com alguém e tenta conversar. Não dá, você não escuta. É instável, às vezes vem uma onda e você engasga, às vezes a onda da um tempo e você consegue boiar mais um pouco.
Aí você acha um porre essa metáfora estúpida e eu explico de novo: é a roupa errada que você usou o dia todo. É o sapato apertado doendo o pé. É a palavra que você esqueceu e não lembra. É a comida com muito sal. É a pior aula de dança que você já fez. Um soco na cara do professor porque você não tem mais domínio sobre o seu corpo. É um salto quebrado. É uma mancha na roupa às 8h da manhã. Uma coisa nova que já quebrou, não tem conserto e a culpa é só sua. É uma surpresa que não deu certo. É um frio que não passa. É um chuveiro que não esquenta. Uma comida que não esfria. É uma resposta sem pergunta. É uma mentira que você inventou e não consegue mais desfazer.
E é não se dar conta de nada disso. Uma coisa ruim te incomoda o dia todo, mas você não percebe a roupa, nem o sapato, nem o salto quebrado, nem o frio. Você perde a paciência, mas não percebe a comida, a dispersão, a desatenção ou o chuveiro.
É uma superfície surda e acaba ficando  impossível escrever um texto sem deixar bem claro que dessa vez sou eu. Mergulhada no desassossego até alguém, que não foi ela, dizer: volta.

BFF

Já te disse como eu gosto do seu cabelo? Ele fica lindo preso de lado com aquele seu lacinho que você nunca me empresta. Também gosto da sua blusa amarela, e olha que antigamente eu nem gostava das suas roupas. Gosto do jeito que você acende o cigarro enquanto ta dirigindo. Nessa hora você sempre diz que a sua unha “tá péssima”. Não entendo, mas diz. E por sua causa passei a reparar nas unhas das pessoas quando elas estão acendendo o cigarro. Gosto do cheiro que tem o seu carro também. Podia ser doce por causa do vidrinho que você espirra la dentro, mas com o cigarro, fica bom. Irônico, mas é assim. Eu pago um pau pra você estacionando a caminhonete do seu pai. Ainda que, quando você pegue o Celta, seja um desastre. Acho incrível como você consegue ser organizada. Suas roupas, sua maquiagem, seu trabalho, seus horários. E nunca vou me esquecer de você me aconselhando, dizendo que com organização até as unhas ficam melhores. As suas, te juro, nunca estão péssimas. Então deve ser verdade.

Eu sei que é estranho dizer isso assim, a toa. Fica tranquila que não vou me declarar pra você. Essa sou eu, me convencendo e reafirmando pra mim mesma o quanto eu gosto de você. O quanto você é especial. O quanto a gente não consegue ficar longe uma da outra, por mais que tente. Porque, sinceramente, nesse momento eu tô querendo te matar.

Não é possível completar a chamada com o número discado.

Ele me ligou e perguntou porque eu estava indo embora.
Minhas amigas estavam conformadas, meus pais tinham aceitado, meus ex-namorados, ex-casos, ex-qualquercoisaqueagenteinventa não queriam nem saber. Até eu tinha desistido de me fazer essa pergunta. E no meio da correria, das caixas, das malas arrumadas, dos buracos sendo tampados pra esconder o tanto de prego e de quadros e de murais e de vida que passaram por aquele apartamento, ele, que nunca esteve por perto, me faz uma pergunta dessas. Fiquei segurando o telefone sem conseguir dizer o que disse pra todas as outras pessoas. E sem não-dizer o que eu não disse a mim mesma. Se eu disser que já terminei o que vim fazer aqui, você vai acreditar? Posso dizer também que foi uma proposta irrecusável. De trabalho, de casamento, de estilo de vida. Que encontrei o amor da minha vida, ou a felicidade, ou o lugar onde, pelo menos, a infelicidade não está. Posso dizer, já sei, que esse tipo de mudança faz parte da vida. Que é preciso saber a hora. Parece maduro, não?
Eu nunca entendi porque meu irmão foi embora. Nunca entendi porque a melhor amiga que eu já tive, quis, de uma hora pra outra, não fazer mais parte da minha vida.  E nunca perguntei pra nenhum dos dois onde é que eles estavam com a cabeça. E aí você decide me ligar e decide que pode querer saber o que nem eu sei. Ou o que não quero saber, pra não correr o risco de querer ficar depois de perceber que ir embora não vai resolver nada. Depois de todas essas linhas de silêncio, eu só consegui encerrar a ligação, implorando: Moço, eu nem sei o seu nome. Pelo amor de Deus, me deixa entregar a chave na imobiliária logo e ir embora desse lugar.

Vai comer aqui ou é pra levar?

Eu estava com um vestido lindo. Um sapato lindo. Meu cabelo tava bem humorado a ponto de sair voando e todo mundo achar lindo mesmo assim. A minha maquiagem deu super certo. Meus sorrisos estavam em harmonia com a conversa. E não era pra ninguém. Não tinha encontro marcado e nem uma esperança de encontrar o amor da minha vida na fila da cerveja. Ou na fila do cinema, ou na fila do supermercado, ou qualquer outro amor de fila.

E foi assim, na ocasião mais inconveniente que poderia existir, que eu desviei a atenção e encontrei os olhos que, ironicamente, estavam desviados pra mim.

Três casais à mesa. Homens de um lado e mulheres do outro. E de onde eu estava, via os homens de frente. Eu não procurei, não provoquei e nem me interessei. Mas os olhos estavam ali. Não me atraiu, mas estavam ali e eu quis fazer qualquer coisa daquela situação. Desviei o olhar. Olhei de novo querendo fazer um teste. De novo. Olha pra sua mulher, eu pensei. Desvio um, dois, três e quatro. Reprovado em todos os testes. Ele olhando pra mim pensando que era uma chance de sair daquela mesa e eu olhando pra ele com nojo, pensando que ele era alguém que só precisava de uma chance. Um olhar pra passar por cima de tudo. Um par de pernas pra desafiar o respeito. Um sorriso pra jogar tudo pro alto. Um minuto pra esquecer.

Com mais frequência do que gostaria, acredito no amor. Quase sempre ele está num vídeo bonito, num texto emocionante ou num filme norte americano. Quando volto pra realidade, não acredito mais. Não acredito no amor de fila. Não acredito no amor de pizzaria. Não acredito no amor da praça de alimentação, no amor de encontro de casais ou no amor entre aspas de toda semana.

Acredito mesmo é no amor que não tem classicação. Amor que não existe.

Mas que eu quero mesmo assim.

Sem esperar nada em troca.

Te prometo tudo. Tudo o que você merece. Prometo zelo, cuidado e respeito. Prometo os melhores amigos que você nem pensou que podia ter. Te prometo lealdade. Te prometo cura, se eu por acaso te machucar. Prometo não faltar em dias de sol, quando você sentir que não pode deixar esse pedacinho da vida passar em branco. Prometo esquecer da vida, quando o sol for embora e você não quiser mais saber de nada. Prometo bons chocolates, bons livros, bons filmes, boas comidas, boas viagens e boas conversas. Prometo sapatos confortáveis, danças inesquecíveis, ideias maravilhosas e prometo não deixar você descascar depois de pegar sol. Prometo coragem. Prometo gritos e prometo menos lágrimas. Prometo mais do que já é muito. Prometo te deixar em paz, se não valer muito a pena tirar o seu sossego. Prometo afastar de você aquilo que não é necessário, e prometo dar passagem só pro que for verdadeiro. Prometo sinceridade, honestidade, calma e menos dor nas costas. Prometo te acompanhar pra correr de manhã na praia, que você tanto quer, sei lá porquê. Prometo ter mais paciência. Te levar ao médico, te alimentar direito, te arrumar melhor, cuidar do seu dinheiro e lembrar você de se alongar o tempo todo. Se isso não é amor, não sei o que é. É amor. Amor-próprio.

Menos um.

A porta ta aberta e isso não é um convite.
To te mandando embora, sem cerimônias.

E você pode ir assim. Sem dar uma desculpa. Sem sair pela tangente.
Antes que você tenha que pensar num jeito de sair quando o assunto acabar, eu to te dando a oportunidade de tornar isso bem mais simples. Não que você tenha escolha. É só um jeito diferente de ver as coisas, se ainda tiver como deixar isso agradável pra alguém.

Não quero conviver com seu egoísmo. Não quero ter data e nem hora pra acabar. Não quero essa frieza absurda que eu não entendo como é que todos vocês conseguem ter. Não quero entrar na sua vida já pensando em sair. Não quero uma conversa burra, não quero um beijo de mentira. Não quero um diálogo que não existe. Não quero ouvir como é difícil pra você, se você não consegue perceber o quanto é difícil pra mim. Não quero te escrever textos. Não quero seus planos. Não quero seu zelo temporário. Não quero essa paranoia estúpida. Não quero me desgastar, não quero cair pra ter que começar a levantar mais uma vez. Não quero encontrar pedaços seus por aí. Não quero procurar pela sua inteligência. Não quero me esforçar pra admirar você. Não quero esperar por você. Por uma resposta, uma reação, uma conversa, uma desculpa, um sofrimento. Nem por uma culpa.

Tô te mandando embora porque você já é visita que passou da hora. Visita que não devia ter vindo. Visita que vem pra casa do parente pra não pagar hotel. Porque é conveniente. Não consigo me desfazer de tudo isso com você aqui. Então te mando embora.

E na hora que você sair, der três passos e olhar pra trás, eu vou olhar pra você e dizer: não importa o quanto eu insista. Não volte.

Corredor 5. Uma mulher. Um homem. Umas cervejas. E um arroz integral. Gravando.

Compras. To fazendo compras. Quero tirar uma foto e mandar pra minha mãe. Mãe, cresci. Moro sozinha e to fazendo compras pela primeira vez. Tem alguma câmera me filmando? Cadê o gerente? Queria uma cópia. Queria pedir pra melhorar a música. É minha primeira compra, gerente. Dá um desconto. Minha vida ta mudando hoje. To comprando sabão, panela, arroz. Plantinhas. Eu nunca pensei que ia comprar plantinhas. E agora, o que acontece? Minha amiga conheceu um namorado fazendo compras. Eu podia conhecer alguém. Ia contar pra minha mãe também.  Ela nunca acreditou que um dia eu ia comprar sabão e plantas. E não anda acreditando que eu sou capaz de um dia conhecer alguém que preste. Mas eu to comprando sabão, to comprando plantas. O próximo passo me parece meio óbvio. Mãe, tem um cara me olhando. É sério. Deixa eu ver. É gatinho, mãe. Um cara fazendo compras, que lindo. Não deve ser mimado. Preciso de um homem assim. Independente. Que trabalhe. Pague suas contas. Deixa eu chegar mais perto pra ver. Não mãe, não vou dar em cima dele. Só quero ver o que ele compra. Tem cerveja. Muita cerveja. Cerveja pra caramba. Bom. Ele sabe aproveitar a vida, deve ser divertido, não quero ninguém careta do meu lado. Também tenho uma cervejinha aqui. Mas também tem comida. Ele pensa em mais coisas além de cerveja. Eu podia pedir uma informação pra ele. Podia esbarrar no carrinho sem querer. Podia sei lá, puxar um papo bobo. Vou rir pra ele… ta bom, mãe, não vou rir. Mas ele já viu que eu olhei. TA VENDO MÃE, ele falou comigo. Eu disse. Minha vida ta mudando. Ele quer saber do arroz, ele come arroz integral, eu to sonhando, mãe? Ta. Calma. Deixa eu pensar. Esse arroz integral tem que render. Já sei. A loja do meu tio. Fica aqui atrás. Mas olha, to aqui comprando porque não fico sem. Mas tenho um tio que tem uma loja que vende esse arroz aqui bem mais barato. Funcionou. Funcionou. Ele pediu meu telefone. Ninguém pede o telefone a toa num supermercado. É sério, eu quero uma cópia da imagem da câmera. Chama o gerente.
Mãe. To apaixonada.

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Cerveja. Onde ta a cerveja? Cerveja é o tipo de coisa que tinha que estar na entrada. Sempre. Aqui não ta. Cadê o gerente? Eu quero achar a cerveja. Achei. Marcão me falou que aqui é bom porque abre até mais tarde. E quem vem fazer compra mais tarde é mais interessante que quem vem fazer compra no horário normal. Não que eu queira arrumar mulher no supermercado. Mas se for gatinha, gostosinha, carinha de… opa. Me deu mole. Deu mole, Marcão, você tava certo. Ninguém ia me dar mole a tarde. Te amo, Marcão. A mina ta sozinha, a essa hora, fazendo compras. Não é casada. Não mora com os pais. Não tem hora pra chegar em casa. Ta me olhando muito. Acho que ela quer dar pra mim. Ela tem cerveja. Beleza. Assim que eu gosto. Cheia das frescuras no carrinho. Plantinha, arroz integral, comida de passarinho. Não tem problema. Me deu mole, é gatinha, tem cerveja, to dentro. E agora, Marcão? Como é que chega numa mulher dentro dessa porra? Tem que rolar essa coisa de por acaso, eu acho. Ei… dá licença. Onde você achou esse arroz? Beleza, gata. É isso aí, facilita pro meu lado. Vamo lá, arroz integral, tem na loja do tio dela, é mais barato… beleza. É agora. Ah, que bom saber. Posso pedir pra você me dar um toque pra eu registrar seu telefone? Numa boa mesmo. To sem meu celular aqui, sem nada pra anotar o endereço da loja. Sabe como é… não fico sem. Mandei bem? Mandei bem, pô. Vou levar essa comida toda pra minha mãe e passo aí pra gente tomar essa cerveja. Amanhã ligo pra ela. Você gosta de arroz integral? Vou te dar isso.
Marcão. Me dei bem.

Cazzo.

Eu sei. Não somos nada um do outro. Nem um recadinho suspeito no orkut. Nem uma declaração cafona no nick do msn. Não temos uma foto juntos. Não sei muita coisa sua. E tenho medo de te perguntar todas as muitas coisas que quero saber. Saí há pouco tempo de uma merda enorme, que não significou muita coisa mas serviu pra me mostrar o quanto eu posso ser otária. Não gostei de você. O jeito que você me olhava. Tinha certeza que você tava no lugar errado. Você devia estar em algum inferninho que sempre toca balão mágico lá pelas 3 da manhã, atrás de alguma loira gostosinha de cabelo liso. Não era pra eu ter saído aquele dia. Não era pra ter te encontrado la fora. Não era pra você ter gostado de mim, mesmo sem gostar – coisa que eu ainda não entendi muito bem. Não era pra você ter entrado. Não era pra eu ter pensado “qual é a desse cara?”, e ter puxado uma conversinha boba. Não era pra essa conversa ter durado a noite toda. Não era pra eu ter olhado quando você  tava voltando do banheiro  e ter encontrado os olhos que eu descobri que, para o meu azar, eram verdes. Não era pra eu estar de bom humor, e querendo pagar pra ver. Não era. Mas você me procurou no outro dia. E eu nem me atrevo a dizer que não era pra ter me procurado. Quis me ver. Quis te ver. E não é que você é bonito mesmo? E a sua risadinha quando fala alguma besteira que tinha tudo pra ser irritante, me faz rir. E você canta bem, mesmo que não escolha sempre as melhores músicas. E tem teorias loucas pra explicar os extraterrestres e os japoneses. E não tem medo de falar que ta com saudade, que quer me ver, de me abraçar, de me elogiar e de me olhar com uma cara que não tem explicação. E agora to assim. Fiquei louca com o seu carnaval. Fiquei aliviada com seus torpedos. Tô sentindo sua falta. Tô feliz porque você vem antes da hora. E sim, preciso dizer: tô com medo. Ou com friozinho na barriga.

Um título triste.

A gente pensando no que fazer no carnaval. Eu pensando qual é o meu problema. As meninas reclamando do cabelo. Todo mundo reclamando do preço da cerveja, da cor do esmalte que não ficou bom. Reparando na roupa da moça da mesa ao lado. Dizendo o tempo todo que não sabe mais o que fazer. Se chove, é uma merda. E se ficar nesse calor, é um inferno. Ta todo mundo puto. Porque ta sem grana pra pagar a dívida inútil daquele sapato que nunca usou, porque cancelaram o show do final de semana, porque ele não ligou, porque deixaram a toalha fora do lugar, porque… porque mesmo? Já nem sei. Já nem sei porque ta todo mundo reclamando, nem me lembro porque foi mesmo que nós brigamos, não faço ideia do que eles estão dizendo, mas na dúvida, eu reclamo junto. E aí chega um dia desses pra esfregar na nossa cara que a gente esquece o tempo todo das coisas que são mesmo importantes. E quando ela disse que é “extremamente inaceitável que o mundo não pare quando a gente perde alguém“, eu olho pros lados e não consigo acreditar que o mundo realmente não parou. Que ainda existe gente que tá puta com alguma merda, que todo mundo ainda ta reclamando de qualquer coisa porque não sabe fazer mais nada, que a gente continua recusando abraços, sorrisos, continua sem dar bom dia, sem pedir desculpas e sem perdoar. E isso não é tudo o que eu consigo fazer pra me livrar de um dia tão pesado. Mas foi só o que eu fiz. Um texto.

Por favor. Parem o mundo.

De papel passado.

E então? Como vamos fazer isso?
Só nos finais de semana? Só quando tiver um feriado? Quando não tiver mais nada pra fazer? Quando der na telha?
E a gente diz o que pros outros? Que tem alguém? Que somos amigos? Que não é nada sério? Não dizemos nada?
E as conversinhas de melar a cueca? A gente pula essa parte? Fingimos que elas são de verdade? Deixamos pra outra hora?
E se der uma paranóia? A gente pode gritar? Fugimos até passar? Não fugimos pra ver o que acontece?
E o que tá permitido? Cinema pode? Mãos dadas? Beijo na testa? Levar em casa? Pagar a conta? Ligar dizendo que chegou bem? Contar o dia? Reclamar da vida? Esquentar no frio? Esquecer do mundo? Recusar convites?
E se você encontrar alguém? Eu me importo? Deixo você saber que eu me importo? Escondo até de mim que me importo?
E então? Onde eu assino?

Ctrl + X

Eu quero que você me jogue na rua. Vai, pega minha coisas, joga numa mala caindo aos pedaços e arremessa pela janela, pra voar cada peça de roupa pra um canto diferente. E pegar todas elas vai me fazer sentir mais e mais humilhada. Uma calcinha no chão, um tapa na cara. Uma blusa no arbusto, uma sacudida. Um sapato na sarjeta, um balde de água fria. E grita, faz uma lista de nomes horríveis e diz todos eles sem dó. Diz que nunca mais quer me ver – e nunca mais queira. Deixa eu sofrer vendo você com outra. Deixa eu ter certeza absoluta que nunca foi nada daquilo, e não ter dúvida alguma que você já me esqueceu. Me julgue. Fala de mim pros outros. De como você tem pena. De como eu sou fraca. Do quanto eu preciso crescer. Diz assim “ela não me esquece”. E deixa as pessoas virarem a cabeça quando vieram falar comigo, olhando de cima e depois comentando baixinho “…coitadinha!”. Seja muito mais feliz sem mim. Esfrega na minha cara que você é maior. Que me superou. Pra mim, é fácil. Difícil, é ser uma pessoa de sorte. Difícil é ter você aí, olhando pra mim, dizendo tudo isso. Difícil é lembrar das coisas boas. E é muito, muito difícil, deixar tudo pra trás. Tão difícil que não consigo nem dizer que não te amo mais. Que já te esqueci. E que sou mais feliz assim.

Vou deixar só encostada.

Você nunca bateu. Toda vez  que apareceu foi assim: quando me dei conta já tinha até sentado, tava abrindo a geladeira e dando palpite no meu jeito de arrumar os livros. Nunca reclamei, porque quero ser madura e te fazer acreditar que sou como você – mas você não acredita porque sequer se importa.

Você abre as cortinas e vê todos os cantos sujos que eu tento esconder. Faz questão de sujar mais um pouco dizendo pra mim “É pra você não esquecer de limpar”.

E de uma hora pra outra me sinto uma visita. Piso e ando com cuidado pra não esbarrar em nada ou quebrar minhas próprias coisas.

Quando você vem, sempre venta. Sempre. E é um vento gelado, que corta a pele e atravessa todos os cantos, deixando tudo meio revirado e confuso. E é esse vento que bagunça meu cabelo, que me faz ficar encolhida esperando por um calor inesperado e que as vezes me tira até o humor.

E aí, quando você vai embora, deixa o chão tão sujo de pegadas que me pergunto por onde você andou. Dá pra ver de cara no que você encostou e onde esbarrou sem querer. O cheiro não, só a presença. O cheiro o vento leva  embora no momento em que você se vai.

Mas tem sempre aquela cadeirinha que você encosta e, não sei mesmo como, não suja. E se eu não tivesse visto, diria que essa você deixou passar. Mas eu vi. Vi e agora não vejo nem sujeira, nem pegadas e nem dedos. E é isso, esse pedaço seu que não ficou, que me faz sentar na frente de casa, esperando você voltar.

Manda entregar pro chefe.

“Nessas horas a gente tem direito a um pedido?”. Foi embora pensando nisso no caminho de volta pra casa. Não ligou pro resultado, pra cara do médico de quem adquiriu com muita prática aquela cara de que sente muito, ou a cabeça baixa e a esfregadinha de mão nas costas que ela deu enquanto escondia estar absolutamente apavorada. Não sentia dor e não sentia estar doente. “Será que eu tenho que fingir?”, “Será que eu tenho que chorar?”. Mas o que ele sabia e o que todo mundo sabe é que era triste. Então ele queria um pedido, como acontece com crianças que vão ao médico e ganham um pirulito vermelho. E sem falar o tanto que ia ser difícil escolher um pedido só, começou a pedir todos. “De repente, um comove mais que o outro e eu tenho mais chance”. “Ou de repente, todos eles juntos comovam tanto que eu fico livre de vez.”

Então ele achou um jeito de pedir tudo: pediu licença poética para viver. Mas que raio de pedido é esse? Já podia ouvir o recebedor de pedidos dizendo isso emburrado olhando por cima dos óculos equilibrados na pontinha do nariz. É isso. Pode escrever assim. Quero licença poética para viver. E o moço não sabia nem classificar aquele tipo de pedido, não entrava nas categorias disponíveis. Bufou um pouco, coçou a barba e tudo bem, anotou aquela maluquice e juntou com os outros, mas num papelzinho azul, porque aquilo tinha que ser analisado, onde é que já se viu?

Mas estava registrado. A vida toda certa, a vida toda planejada… pra ele, era um modelo que ele pegou pra mudar a ordem, rabiscar, trocar as coisas de lugar, inverter tudo, sacudir e jogar pra cima, só pra ver no que vai dar. E aí foi que um outro moço, desses que ficam só olhando a gente fazer as coisas, deu uma risadinha debochada e disse, Agora agüenta, meu filho.

E aí foi um caos. E ele sabia disso todos os dias. Sabia quando a culpa o acordava pontualmente às seis e meia da manhã, sabia quando ia ao banco e não encontrava nada, sabia quando se via longe de tudo e de tanta gente. Soube disso a cada briga, a cada vez que caia uma lágrima, a cada vez que alguém ia embora.

Mas pedir pra voltar atrás? Pedir perdão? Pedir pra que eles esqueçam? Ah. Então me dê logo outra vida. Eu quero é licença pra mexer nessa vida chata, vida de gravata, vida de mentira. Se eu tiver licença poética pra viver, eu fico feliz. Fico e, se bobear, quando chegar a hora (e ela há de demorar), até vou feliz também.

Essa coisa toda.

Essa coisa de amar. Ah, sei lá. É barulhento, é melado, é egoísta, é falso, é imaturo. E acaba, e começa, e acaba, e começa, e acaba e começa. E nunca acaba. E é um saco. E não elogia, e não repara, e repara demais e da vontade de jogar pela janela. E depois amar de novo.

Essa coisa de ter filho, não sei não. Sua vida duplica. Sua preocupação duplica. Sua responsabilidade duplica. Sua culpa triplica. E seu dinheiro zera. E joga na cara, e diz que te odeia, e quer fugir e não vê a hora de sair de casa. Faz tudo ao contrário, escreve na parede que não pediu pra nascer. Te entrega todos os dias a verdade que você mente e os defeitos que você enterra.

Essa coisa de ser velho, sempre achei muito difícil. Tudo dói, tudo enruga, tudo acaba. Já foi, você já viveu, já pariu, já deu, já errou. Agora senta no sofá com meias azuis e chinelos. Assiste ao que estiver passando, não faz muito importância. Você já viu de tudo. E aí finge que não percebe que ta acabando e que ainda falta tanta coisa. E finge que não se dá conta que você já desistiu. E vai pro ponto de ônibus e puxa conversa pra se distrair, e finge que não se importa se alguém dá o lugar, nega nega e nega e as pernas doem tanto. E acaba.

Essa coisa de viver. Tsc. Te rasga, te derruba, te dilacera em pedacinhos tão pequenos que você nunca consegue achar. E dói tanto que a gente chega a enlouquecer só de achar que não vai dar tempo de viver tudo. Nem de amar, nem de ter filho nem de envelhecer. Nem de morrer com a certeza que viveu e sofreu como ninguém.

No lustre do castelo

Quando ela me disse “É aquele ali, ó”, eu tive certeza. Não me lembrava do que é que ela estava falando, É aquele ali o quê?, me perguntei bem sem querer saber – tanto que até deixei pra lá. Eu só tive certeza. Você não me olhou mas eu disse, Tudo bem. Eu tinha certeza que você estava me esperando há horas ou há sei lá quanto tempo. Era muito. Nem que fosse há muitos minutos. Tinha escolhido um sapato que eu não gosto, mas Tudo bem, me disse de novo. A cor da camiseta tinha sido só para me agradar. Te amei tanto nesse momento que planejei em 30 segundos uma viagem inteira pra um lugar que eu não consigo planejar agora, porque vai ser dessas viagens que você vai me ligar numa sexta às 17h e dizer, Hoje a gente viaja, chega em casa e arruma a mala que eu te pego às 20h. E eu quero chutar você até você rir aquela risada engraçada como as risadas de cosquinha ou de piadas que não tem graça pra mais ninguém. Ela continuava falando e eu não sei por que não desistia, eu não estava mesmo querendo saber. Tinha alguém conversando com você e eu ria por dentro porque vi que você precisava sair dali correndo ou ia explodir com a conversa chata daquele cara que encostava em você o tempo todo. Eu podia ir até lá te socorrer, mas seria muito mais divertido te ouvir contar, me fazendo rir mais tarde quando a gente gastasse todas as conversas deitados na cama com a televisão no mute. “Você acredita nisso???”, ela disse depois de falar muito sobre alguma coisa que eu não fiz questão de ouvir porque estava muito ocupada com você. Aí eu falei “É… acho que não”, dessas respostas que a gente dá pra não desgastar muito a paciência. Ela pegou uma taça do garçom que vinha passando e, antes de virar goela abaixo, concluiu: “Pois acredite. Esse desgraçado ta dando em cima de mim há dias e não sei mais o que fazer. Lindo ele, né?”

Exausta.

Por algum motivo que não faz parte do meu acervo de compreensões, quando me dizem que você não me rejeita, eu não acredito. E acho mesmo, do fundo do meu coração, que você podia ajudar. Porque ta me dando muito trabalho. O esforço em procurar a elegância no meio da minha bagunça, a cruzada de pernas pro seu lado e supor que você gosta de unhas vermelhas quase cor-de-vinho, quadradinhas e num tamanho médio. Eu fico confusa quando você elogia a moça dos cabelos lisos e no dia seguinte defende os encaracolados comigo numa conversa despretensiosa que durou a tarde toda. E se você finge que eu sou melhor que aquela menina dos peitos grandes, o que eu penso? Que atingimos um nível de amizade onde você supõe que não vou mais levar nada para o outro lado? Ou que na verdade você não está fingindo? Numa boa, eu posso lidar com o fato de que não sou para você. Ok, fico bem com isso. Estou pré-psicologicamente-preparada (sic) para ser rejeitada por você. Não sei falar de política, não tenho os tais cabelos lisos, não tenho as pernas dela, não sou forte como você e me sinto burra ao seu lado. Não decidi o que eu quero pra minha vida, não tenho planos para o ano que vem e as minhas finanças são uma bagunça. Não tenho certeza se sou boa de cama, não tenho opinião formada sobre muitas coisas e o pior de tudo é que algumas vezes não faço mesmo questão de ter. Eu tenho bafinho pela manhã, acordo descabelada, meus pés são feios e meus pêlos das pernas encravam. Eu me rejeitei para você. Percebeu? E inventei uma entidade sua só pra mim. No meio do dia penso que vai rolar e saio de órbita quando vou ser surpreendida. Porque a minha entidade sua (sic) vai fazer o que você não consegue. Eu olho pra ela e digo que você é chato. Que não é tão bonito e que tem obturações feias nos dentes (que eu só não consegui ver ainda). Que o seu charme passa. Que as suas músicas devem ser tão cansativas quanto seus filmes, e que você não deve saber cozinhar. E se homens se dão ao luxo de ter suas preferências ridículas, a minha é essa: você só serve se cozinhar pra mim enquanto eu espero no quarto como uma lady. As suas flores não devem ser amarelas. Você não vai entender minhas lágrimas e não vai aceitar meus ossos quebrados. Outro dia me peguei brigando com a entidade, porque você vai me deixar falando sozinha. Vai dizer uma meia dúzia de palavras definitivas enquanto eu penso em duzentas outras que não querem definir nada. E todos os dias a entidade senta ao meu lado na cama e, antes que ela me diga qualquer coisa, eu me viro para a parede e te rejeito. E você evapora, pra voltar no outro dia e implorar pra eu te deixar ficar. Sou muito difícil, mas posso até pensar no seu caso.

Conta encerrada.

Hoje eu não concordo com você. Retiro todos os meus “sins” e meus suspiros apertados que consentiam com a sua falta de caráter. Hoje eu não quero saber de um minuto depois do combinado, não quero ouvir nem ler uma frase desconexa, não quero procurar sua inteligência e não quero suportar sua fraqueza. Hoje eu não me admito ser sua. Nem do jeito todo, e nem do meio jeito. Hoje eu não te espero. Não espero sua visita, sua mensagem, seu olhar, suas desculpas, sua opinião ou o seu amor. Sou só minha e pra você não tem mais nada. Eu não te evito e nem te tolero. Hoje eu não “te”. Eu quis fazer uma listas pra você. Do que você não vale. E do que você vale. Parei logo porque percebi que só teria uma lista. E isso não vale mais nada.

Ou deixa um comentário, se quiser.

Preciso ir.
Perdi a hora, olhei pro relógio e levei um susto. Tô cheia de coisas pra fazer e tô aqui perdendo tempo. Sei que você tem alguma coisa pra me falar, sei que falta resolver aqueles assuntos, mas qualquer coisa manda por e-mail, torpedo, scrap, pede pra alguém me falar, sei lá. Agora não dá. Ficaram até algumas coisas grandes penduradas, aquela viagem, o nome do cachorro que nunca resolvemos, aquela visita na sua tia, aquele show que nunca fomos. Putz, a lista é grande. Tem um monte de gente me esperando, eu sei que não é a melhor maneira, mas você também não viu a hora passar então não venha colocar a culpa em mim. Não tô com tempo nem pra me sentir culpada. E você sabe, eu estou sempre atrasada. Não ia ser diferente dessa vez.

Pra todo o sempre.

Fodeu. Já era, não tem mais jeito. Perdi a chance de me livrar dessa roubada. Eu dizia sempre pra você que não queria, e olha só pra mim. E pra você! Já foram os seus 30, e olha só pra você. Não rolou. Mas eu? Olha esse vestido. Olha esse anel na minha mão. Olha lá pra fora. É tudo como no filme que eu imaginava na minha cabeça: ao dia, muito amarelinho, essas crianças correndo e o sol batendo ali daquele lado. Mas não era pra ser, você entende? Era só um filme, não podia rolar. É bonito, é lindo, tem as crianças, as flores, o sol e os sorrisos. E depois tem tudo aquilo, a confiança, o olhar, a ternura, o abraço, a comidinha, o beijo na testa, a certeza, as mãos dadas, o clube nos finais de semana, o sexo, o cafuné, as saudades, as conquistas e a amizade. Mas acontece que depois que o filme acaba, ou por trás das câmeras, ou quando ninguém está olhando, as crianças gritam desesperadas e a mãe se lamenta 24 horas por dia pra si mesma sem ninguém ver, as flores custam caro e não são tão amarelas assim, o sol bate e queima mais do que deveria. E tem a traição, tem os olhares desviados, tem o peso, tem o sexo, tem a falta dele, tem o desleixo, tem uma vida inteira, tem a carga, tem a culpa, tem o passado, tem o “se” pelos restos dos nossos dias. O filme acaba, e essa parte não termina nunca. E mesmo assim, olha só pra mim: vou dizer sim.

E uma chaleira também.

Quando crescer, não quero mais ser médica, dentista ou professora. Muito menos estilista, que é o que eu dizia pra todo mundo, com a minha mania de sempre querer ser direrente. Quero ser uma mulher que tem gatos. Mulheres de gatos são independentes, e tão auto-suficientes que tem bichinhos que não estão nem aí pra ninguém. Quero ser uma mulher que tem jardim. Mesmo esquecendo de molhar as plantas quando meu pai viaja. Ter um jardim é, no mínimo, charmoso. Vai ter que ter alguma florzinha amarela e alguma coisinha laranja. E o quintal vai ter luzinhas pequenas e espalhadas, e uma cadeira grande de madeira com almofadas coloridas vai me esperar todas as noites. Quero ser uma mulher de cortinas. Porque no vento, as persianas fazem barulho. E as cortinas dançam.

Sua sorte é o cheiro.

Hoje eu vou. Ah, quer saber? Vou mesmo. Não quero saber o que vocês acham, não quero ouvir o que ninguém tem a dizer, nem nada. Quer saber? Vou e ninguém vai nem ficar sabendo. Quando perceberem, já fui. Eu vou, vou sem nem pensar no que é que eu tô fazendo, nem aí pra ele. Vou porque me deu na telha, e é isso mesmo, ele fez o que fez e eu tô indo lá fazer o que vou. E também não te interessa, e se quer saber, não interessa nem a mim. Porque eu só vou. Depois, não sei. Vai que rola, sei lá. Não ligo. E amanhã, nem lembro. Nada de telefone, de conversinha, torpedo ou qualquer merda que não significa nada. É isso mesmo, e se não gostar, um beijinho. Não tem nada aí pra mim que me faça perder um filminho meia boca que passa na tevê aberta e que me faz chorar. E é por isso mesmo que te troco por ele sem pensar, pra ficar embaixo das cobertas  chorando por amores que nunca vivi. Você, por um filme. Isso aí. Tá pensando o que? Não, nem fala, porque eu não ligo. Eu já esqueci como você fala, até. Mas ainda nem ligo. Só ligo para o que me faz chorar. Ah, quer saber? Desisti. Vamos desmarcar?

Hora de desligar a tevê.

Ela estava acostumada. Ele fingia que não escutava o que todo mundo dizia, fingia que não gostava da comida pra não parecer que ela tinha vencido e fingia que não ligava para o presente para fugir do amor. Ela, fingia que acreditava que ele não ouvia e repetia duas, três vezes. Fazia a comida sempre um pouco melhor ou caprichava nos caprichos daquele velho, só porque sabia que no fundo ele não trocava aquilo por banquete nenhum nesse mundo. Mas ela não gostava muito quando via que ele fugia do amor. Não o seu, porque dali já não dava mais para fugir. Mas o amor deles. E naquela época do ano, como há uns anos não acontecia, estavam todos ali, todos os seus amores. Ela se perguntava sempre se algum dia alguém ia perceber que aquele tanto de amor que ela dava era, em partes, pra que ninguém percebesse que faltava o amor do outro lado. As meninas cresceram, e as novas meninas estão quase crescidas, e quase não existe mais tempo, e elas quase não aparecem. Quase não se lembram. Os meninos, você sabe. Sempre os meninos. Os seus meninos e os meninos deles. E ainda assim, pra todos eles, o que ficava era a ausência. E a mágoa. E o rancor. Mas de tudo isso da pra fugir. Só não da pra fugir do amor. E nem da falta dele.

Você tem uma nova mensagem.

Oi, sou eu. Sei que você não tá em casa e foi por isso mesmo que liguei. A princípio eu só queria ouvir sua voz estúpida, mas eu pensei bem e percebi que precisava te falar que eu cansei. To cansada de vocês. Até dessa sua voz rouca e puta que pariu. Cansei. Não quero precisar que você fale comigo, porque eu preciso me sentir querida e admirada. Não quero que ele tenha que babar meu ovo e dizer que quer terminar com a namorada, mesmo que ele não diga que é pra ficar comigo – ele acaba dizendo de algum jeito que quer estar livre pra ficar comigo de algum outro jeito. Não quero que ele queira trair por minha causa. Não quero sentir a necessidade de que olhem pra mim e pra minha bunda e queiram me comer. Porque as mulheres reclamam disso? Toda mulher quer ser comida. Ou pelo menos quer que queiram comê-la. E fazem cara de nojo. Ridículo. Mas eu simplesmente não quero sentir isso, deu pra entender? Não vou fazer cara de nojo. Eu quero ser indiferente. Aliás, me peguei dando esse conselho: seja indiferente. Eu, presta bem atenção. A menos indiferente pra vida. Que respira carência. Eu não quero também precisar ouvir deles que eu sou foda. Porque assim eu posso me concentrar, quem sabe, em um dia ser foda. Porque eu não sei se você percebeu, mas não sou. Aliás, você é uma das pessoas que menos me percebe. E eu fico puta. O tempo passa, eu ainda não decidi se você mudou, mas tem certas coisas que nunca mudam. Pra mim e pra você. Você se finge de bom moço mas ta pouco se fudendo. E eu me reviro de raiva e faço todas as merdas do mundo. Não quero também me incomodar com ele. Eu não quero me entender, não quero conversar, não quero nada. É isso: nada. Nada de mágoa, nada de ressentimentos, nada de incômodo. Nada. Se ele vier, foda-se. Não me importo. Se não vier, foda-se. Nem vou perceber. E você aí, em algum lugar que não sei, com seus novos amigos e amigas piranhas. Todas elas, piranhas. Eu de alguma forma, sempre estou num outro patamar. E pode acreditar, não me sinto bem com isso. As vezes queria ser piranha também, ia ser mais fácil. Mas nem isso consigo. Sou sempre a diferente. A que não esquecem, a que tem alguma coisa que não sei o que é. Outro nível, baby. O que acontece? Eu tava indo tão bem. Essa fraqueza ridícula que eu odeio nas pessoas e não me permito ter. A culpa pode ser sua. Você sempre vai ter uma culpa na minha vida. Como você teve coragem? E como eu posso estar agindo tão naturalmente? Eu vou cobrar, pode apostar. Vou te botar na parede. Devia jogar a cerveja na sua cara. Levantar e sair andando. Vou estar preocupada com minha bunda nesse momento e sentindo que escolhi a roupa errada, mas pelo menos você vai estar com sua cara de merda como se eu fosse a louca. Louca eu? Você adorava dizer isso. Paranóica. Obcecada? Não me lembro. Mas beirava isso. E eu chorava e te pedia desculpas. Acabei de rir lembrando. Eu era a mais retardada. Você revertia a história de um jeito que me fazia pedir desculpas. Eu fico imaginando hoje como você reagia quando eu descia do seu carro. Será que sentia algum remorso? Você ria e contava pros seus amigos? Você se orgulhava porque era foda e conseguia me fazer acreditar em tudo de uma forma incrivelmente fácil? Em alguns momentos eu quase consegui. Ser a vaca perfeita e te pegar no pulo. Mas você era mais cavalo. Você estava sempre um passo a frente. Tinha tudo pronto. Naquele dia eu fui trabalhar em estado de choque. Achava que ia desabar a qualquer momento. Minha memória é uma merda, mas eu me lembro bem de como me senti naquela tarde. Lixo. E você, tão bonzinho, conseguiu fazer com que eu tirasse aquele cheiro nojento do corpo. Que besteira. Não seja assim, não acredite em tudo. Otária.
E lembra como você chorou? Eu senti tanta pena. Olha o que estou fazendo com ele. Porque você chorou? Você sentia mesmo alguma coisa? É uma das coisas que não entendo. Que você fizesse suas merdas e risse depois no carro eu até entendo. Faz todo o sentido. Mas chorar? Não seja fraco. Fique aliviado. Porque eu fiz o que você não tinha coragem. E essa merda de secretária ja desligou faz tempo.


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Diálogos, monólogos, conversas, crônicas, histórias malucas e talvez, quem sabe, até reais, de uma cabeça bem esquisita.

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