Arquivo de setembro \28\UTC 2009

No lustre do castelo

Quando ela me disse “É aquele ali, ó”, eu tive certeza. Não me lembrava do que é que ela estava falando, É aquele ali o quê?, me perguntei bem sem querer saber – tanto que até deixei pra lá. Eu só tive certeza. Você não me olhou mas eu disse, Tudo bem. Eu tinha certeza que você estava me esperando há horas ou há sei lá quanto tempo. Era muito. Nem que fosse há muitos minutos. Tinha escolhido um sapato que eu não gosto, mas Tudo bem, me disse de novo. A cor da camiseta tinha sido só para me agradar. Te amei tanto nesse momento que planejei em 30 segundos uma viagem inteira pra um lugar que eu não consigo planejar agora, porque vai ser dessas viagens que você vai me ligar numa sexta às 17h e dizer, Hoje a gente viaja, chega em casa e arruma a mala que eu te pego às 20h. E eu quero chutar você até você rir aquela risada engraçada como as risadas de cosquinha ou de piadas que não tem graça pra mais ninguém. Ela continuava falando e eu não sei por que não desistia, eu não estava mesmo querendo saber. Tinha alguém conversando com você e eu ria por dentro porque vi que você precisava sair dali correndo ou ia explodir com a conversa chata daquele cara que encostava em você o tempo todo. Eu podia ir até lá te socorrer, mas seria muito mais divertido te ouvir contar, me fazendo rir mais tarde quando a gente gastasse todas as conversas deitados na cama com a televisão no mute. “Você acredita nisso???”, ela disse depois de falar muito sobre alguma coisa que eu não fiz questão de ouvir porque estava muito ocupada com você. Aí eu falei “É… acho que não”, dessas respostas que a gente dá pra não desgastar muito a paciência. Ela pegou uma taça do garçom que vinha passando e, antes de virar goela abaixo, concluiu: “Pois acredite. Esse desgraçado ta dando em cima de mim há dias e não sei mais o que fazer. Lindo ele, né?”

Exausta.

Por algum motivo que não faz parte do meu acervo de compreensões, quando me dizem que você não me rejeita, eu não acredito. E acho mesmo, do fundo do meu coração, que você podia ajudar. Porque ta me dando muito trabalho. O esforço em procurar a elegância no meio da minha bagunça, a cruzada de pernas pro seu lado e supor que você gosta de unhas vermelhas quase cor-de-vinho, quadradinhas e num tamanho médio. Eu fico confusa quando você elogia a moça dos cabelos lisos e no dia seguinte defende os encaracolados comigo numa conversa despretensiosa que durou a tarde toda. E se você finge que eu sou melhor que aquela menina dos peitos grandes, o que eu penso? Que atingimos um nível de amizade onde você supõe que não vou mais levar nada para o outro lado? Ou que na verdade você não está fingindo? Numa boa, eu posso lidar com o fato de que não sou para você. Ok, fico bem com isso. Estou pré-psicologicamente-preparada (sic) para ser rejeitada por você. Não sei falar de política, não tenho os tais cabelos lisos, não tenho as pernas dela, não sou forte como você e me sinto burra ao seu lado. Não decidi o que eu quero pra minha vida, não tenho planos para o ano que vem e as minhas finanças são uma bagunça. Não tenho certeza se sou boa de cama, não tenho opinião formada sobre muitas coisas e o pior de tudo é que algumas vezes não faço mesmo questão de ter. Eu tenho bafinho pela manhã, acordo descabelada, meus pés são feios e meus pêlos das pernas encravam. Eu me rejeitei para você. Percebeu? E inventei uma entidade sua só pra mim. No meio do dia penso que vai rolar e saio de órbita quando vou ser surpreendida. Porque a minha entidade sua (sic) vai fazer o que você não consegue. Eu olho pra ela e digo que você é chato. Que não é tão bonito e que tem obturações feias nos dentes (que eu só não consegui ver ainda). Que o seu charme passa. Que as suas músicas devem ser tão cansativas quanto seus filmes, e que você não deve saber cozinhar. E se homens se dão ao luxo de ter suas preferências ridículas, a minha é essa: você só serve se cozinhar pra mim enquanto eu espero no quarto como uma lady. As suas flores não devem ser amarelas. Você não vai entender minhas lágrimas e não vai aceitar meus ossos quebrados. Outro dia me peguei brigando com a entidade, porque você vai me deixar falando sozinha. Vai dizer uma meia dúzia de palavras definitivas enquanto eu penso em duzentas outras que não querem definir nada. E todos os dias a entidade senta ao meu lado na cama e, antes que ela me diga qualquer coisa, eu me viro para a parede e te rejeito. E você evapora, pra voltar no outro dia e implorar pra eu te deixar ficar. Sou muito difícil, mas posso até pensar no seu caso.



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