Arquivo para outubro \28\UTC 2009

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Eu quero que você me jogue na rua. Vai, pega minha coisas, joga numa mala caindo aos pedaços e arremessa pela janela, pra voar cada peça de roupa pra um canto diferente. E pegar todas elas vai me fazer sentir mais e mais humilhada. Uma calcinha no chão, um tapa na cara. Uma blusa no arbusto, uma sacudida. Um sapato na sarjeta, um balde de água fria. E grita, faz uma lista de nomes horríveis e diz todos eles sem dó. Diz que nunca mais quer me ver – e nunca mais queira. Deixa eu sofrer vendo você com outra. Deixa eu ter certeza absoluta que nunca foi nada daquilo, e não ter dúvida alguma que você já me esqueceu. Me julgue. Fala de mim pros outros. De como você tem pena. De como eu sou fraca. Do quanto eu preciso crescer. Diz assim “ela não me esquece”. E deixa as pessoas virarem a cabeça quando vieram falar comigo, olhando de cima e depois comentando baixinho “…coitadinha!”. Seja muito mais feliz sem mim. Esfrega na minha cara que você é maior. Que me superou. Pra mim, é fácil. Difícil, é ser uma pessoa de sorte. Difícil é ter você aí, olhando pra mim, dizendo tudo isso. Difícil é lembrar das coisas boas. E é muito, muito difícil, deixar tudo pra trás. Tão difícil que não consigo nem dizer que não te amo mais. Que já te esqueci. E que sou mais feliz assim.

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Vou deixar só encostada.

Você nunca bateu. Toda vez  que apareceu foi assim: quando me dei conta já tinha até sentado, tava abrindo a geladeira e dando palpite no meu jeito de arrumar os livros. Nunca reclamei, porque quero ser madura e te fazer acreditar que sou como você – mas você não acredita porque sequer se importa.

Você abre as cortinas e vê todos os cantos sujos que eu tento esconder. Faz questão de sujar mais um pouco dizendo pra mim “É pra você não esquecer de limpar”.

E de uma hora pra outra me sinto uma visita. Piso e ando com cuidado pra não esbarrar em nada ou quebrar minhas próprias coisas.

Quando você vem, sempre venta. Sempre. E é um vento gelado, que corta a pele e atravessa todos os cantos, deixando tudo meio revirado e confuso. E é esse vento que bagunça meu cabelo, que me faz ficar encolhida esperando por um calor inesperado e que as vezes me tira até o humor.

E aí, quando você vai embora, deixa o chão tão sujo de pegadas que me pergunto por onde você andou. Dá pra ver de cara no que você encostou e onde esbarrou sem querer. O cheiro não, só a presença. O cheiro o vento leva  embora no momento em que você se vai.

Mas tem sempre aquela cadeirinha que você encosta e, não sei mesmo como, não suja. E se eu não tivesse visto, diria que essa você deixou passar. Mas eu vi. Vi e agora não vejo nem sujeira, nem pegadas e nem dedos. E é isso, esse pedaço seu que não ficou, que me faz sentar na frente de casa, esperando você voltar.

Manda entregar pro chefe.

“Nessas horas a gente tem direito a um pedido?”. Foi embora pensando nisso no caminho de volta pra casa. Não ligou pro resultado, pra cara do médico de quem adquiriu com muita prática aquela cara de que sente muito, ou a cabeça baixa e a esfregadinha de mão nas costas que ela deu enquanto escondia estar absolutamente apavorada. Não sentia dor e não sentia estar doente. “Será que eu tenho que fingir?”, “Será que eu tenho que chorar?”. Mas o que ele sabia e o que todo mundo sabe é que era triste. Então ele queria um pedido, como acontece com crianças que vão ao médico e ganham um pirulito vermelho. E sem falar o tanto que ia ser difícil escolher um pedido só, começou a pedir todos. “De repente, um comove mais que o outro e eu tenho mais chance”. “Ou de repente, todos eles juntos comovam tanto que eu fico livre de vez.”

Então ele achou um jeito de pedir tudo: pediu licença poética para viver. Mas que raio de pedido é esse? Já podia ouvir o recebedor de pedidos dizendo isso emburrado olhando por cima dos óculos equilibrados na pontinha do nariz. É isso. Pode escrever assim. Quero licença poética para viver. E o moço não sabia nem classificar aquele tipo de pedido, não entrava nas categorias disponíveis. Bufou um pouco, coçou a barba e tudo bem, anotou aquela maluquice e juntou com os outros, mas num papelzinho azul, porque aquilo tinha que ser analisado, onde é que já se viu?

Mas estava registrado. A vida toda certa, a vida toda planejada… pra ele, era um modelo que ele pegou pra mudar a ordem, rabiscar, trocar as coisas de lugar, inverter tudo, sacudir e jogar pra cima, só pra ver no que vai dar. E aí foi que um outro moço, desses que ficam só olhando a gente fazer as coisas, deu uma risadinha debochada e disse, Agora agüenta, meu filho.

E aí foi um caos. E ele sabia disso todos os dias. Sabia quando a culpa o acordava pontualmente às seis e meia da manhã, sabia quando ia ao banco e não encontrava nada, sabia quando se via longe de tudo e de tanta gente. Soube disso a cada briga, a cada vez que caia uma lágrima, a cada vez que alguém ia embora.

Mas pedir pra voltar atrás? Pedir perdão? Pedir pra que eles esqueçam? Ah. Então me dê logo outra vida. Eu quero é licença pra mexer nessa vida chata, vida de gravata, vida de mentira. Se eu tiver licença poética pra viver, eu fico feliz. Fico e, se bobear, quando chegar a hora (e ela há de demorar), até vou feliz também.

Essa coisa toda.

Essa coisa de amar. Ah, sei lá. É barulhento, é melado, é egoísta, é falso, é imaturo. E acaba, e começa, e acaba, e começa, e acaba e começa. E nunca acaba. E é um saco. E não elogia, e não repara, e repara demais e da vontade de jogar pela janela. E depois amar de novo.

Essa coisa de ter filho, não sei não. Sua vida duplica. Sua preocupação duplica. Sua responsabilidade duplica. Sua culpa triplica. E seu dinheiro zera. E joga na cara, e diz que te odeia, e quer fugir e não vê a hora de sair de casa. Faz tudo ao contrário, escreve na parede que não pediu pra nascer. Te entrega todos os dias a verdade que você mente e os defeitos que você enterra.

Essa coisa de ser velho, sempre achei muito difícil. Tudo dói, tudo enruga, tudo acaba. Já foi, você já viveu, já pariu, já deu, já errou. Agora senta no sofá com meias azuis e chinelos. Assiste ao que estiver passando, não faz muito importância. Você já viu de tudo. E aí finge que não percebe que ta acabando e que ainda falta tanta coisa. E finge que não se dá conta que você já desistiu. E vai pro ponto de ônibus e puxa conversa pra se distrair, e finge que não se importa se alguém dá o lugar, nega nega e nega e as pernas doem tanto. E acaba.

Essa coisa de viver. Tsc. Te rasga, te derruba, te dilacera em pedacinhos tão pequenos que você nunca consegue achar. E dói tanto que a gente chega a enlouquecer só de achar que não vai dar tempo de viver tudo. Nem de amar, nem de ter filho nem de envelhecer. Nem de morrer com a certeza que viveu e sofreu como ninguém.


O que tem aqui

Diálogos, monólogos, conversas, crônicas, histórias malucas e talvez, quem sabe, até reais, de uma cabeça bem esquisita.

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