Manda entregar pro chefe.

“Nessas horas a gente tem direito a um pedido?”. Foi embora pensando nisso no caminho de volta pra casa. Não ligou pro resultado, pra cara do médico de quem adquiriu com muita prática aquela cara de que sente muito, ou a cabeça baixa e a esfregadinha de mão nas costas que ela deu enquanto escondia estar absolutamente apavorada. Não sentia dor e não sentia estar doente. “Será que eu tenho que fingir?”, “Será que eu tenho que chorar?”. Mas o que ele sabia e o que todo mundo sabe é que era triste. Então ele queria um pedido, como acontece com crianças que vão ao médico e ganham um pirulito vermelho. E sem falar o tanto que ia ser difícil escolher um pedido só, começou a pedir todos. “De repente, um comove mais que o outro e eu tenho mais chance”. “Ou de repente, todos eles juntos comovam tanto que eu fico livre de vez.”

Então ele achou um jeito de pedir tudo: pediu licença poética para viver. Mas que raio de pedido é esse? Já podia ouvir o recebedor de pedidos dizendo isso emburrado olhando por cima dos óculos equilibrados na pontinha do nariz. É isso. Pode escrever assim. Quero licença poética para viver. E o moço não sabia nem classificar aquele tipo de pedido, não entrava nas categorias disponíveis. Bufou um pouco, coçou a barba e tudo bem, anotou aquela maluquice e juntou com os outros, mas num papelzinho azul, porque aquilo tinha que ser analisado, onde é que já se viu?

Mas estava registrado. A vida toda certa, a vida toda planejada… pra ele, era um modelo que ele pegou pra mudar a ordem, rabiscar, trocar as coisas de lugar, inverter tudo, sacudir e jogar pra cima, só pra ver no que vai dar. E aí foi que um outro moço, desses que ficam só olhando a gente fazer as coisas, deu uma risadinha debochada e disse, Agora agüenta, meu filho.

E aí foi um caos. E ele sabia disso todos os dias. Sabia quando a culpa o acordava pontualmente às seis e meia da manhã, sabia quando ia ao banco e não encontrava nada, sabia quando se via longe de tudo e de tanta gente. Soube disso a cada briga, a cada vez que caia uma lágrima, a cada vez que alguém ia embora.

Mas pedir pra voltar atrás? Pedir perdão? Pedir pra que eles esqueçam? Ah. Então me dê logo outra vida. Eu quero é licença pra mexer nessa vida chata, vida de gravata, vida de mentira. Se eu tiver licença poética pra viver, eu fico feliz. Fico e, se bobear, quando chegar a hora (e ela há de demorar), até vou feliz também.

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2 Responses to “Manda entregar pro chefe.”


  1. 2 Sergio outubro 17, 2009 às 8:20 pm

    E haja chefe, mordaça e rotina sem graça, pra tirar o tesão. O que mais tem é cabresto se o caminho não é de aventura, se o sonho não vem, se não tem paixão. O duro mesmo é que depois de tudo, no fim do arco íris o pote é de barro e vazio ou cheio de medo e arrependimento de não ter tomado outro rumo mais colorido ou temperado como se fosse a salvação. O duro é que não tem mesmo volta, é que se joga pra frente, cada volta é um laço, cada laço um pedaço e uma desilusão. Também quero outra chance pra voltar e fazer tudo de novo, chorar, mentir, amar, sofrer, e depois pedir perdão.


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