Arquivo de maio \18\UTC 2010

Não é possível completar a chamada com o número discado.

Ele me ligou e perguntou porque eu estava indo embora.
Minhas amigas estavam conformadas, meus pais tinham aceitado, meus ex-namorados, ex-casos, ex-qualquercoisaqueagenteinventa não queriam nem saber. Até eu tinha desistido de me fazer essa pergunta. E no meio da correria, das caixas, das malas arrumadas, dos buracos sendo tampados pra esconder o tanto de prego e de quadros e de murais e de vida que passaram por aquele apartamento, ele, que nunca esteve por perto, me faz uma pergunta dessas. Fiquei segurando o telefone sem conseguir dizer o que disse pra todas as outras pessoas. E sem não-dizer o que eu não disse a mim mesma. Se eu disser que já terminei o que vim fazer aqui, você vai acreditar? Posso dizer também que foi uma proposta irrecusável. De trabalho, de casamento, de estilo de vida. Que encontrei o amor da minha vida, ou a felicidade, ou o lugar onde, pelo menos, a infelicidade não está. Posso dizer, já sei, que esse tipo de mudança faz parte da vida. Que é preciso saber a hora. Parece maduro, não?
Eu nunca entendi porque meu irmão foi embora. Nunca entendi porque a melhor amiga que eu já tive, quis, de uma hora pra outra, não fazer mais parte da minha vida.  E nunca perguntei pra nenhum dos dois onde é que eles estavam com a cabeça. E aí você decide me ligar e decide que pode querer saber o que nem eu sei. Ou o que não quero saber, pra não correr o risco de querer ficar depois de perceber que ir embora não vai resolver nada. Depois de todas essas linhas de silêncio, eu só consegui encerrar a ligação, implorando: Moço, eu nem sei o seu nome. Pelo amor de Deus, me deixa entregar a chave na imobiliária logo e ir embora desse lugar.

Vai comer aqui ou é pra levar?

Eu estava com um vestido lindo. Um sapato lindo. Meu cabelo tava bem humorado a ponto de sair voando e todo mundo achar lindo mesmo assim. A minha maquiagem deu super certo. Meus sorrisos estavam em harmonia com a conversa. E não era pra ninguém. Não tinha encontro marcado e nem uma esperança de encontrar o amor da minha vida na fila da cerveja. Ou na fila do cinema, ou na fila do supermercado, ou qualquer outro amor de fila.

E foi assim, na ocasião mais inconveniente que poderia existir, que eu desviei a atenção e encontrei os olhos que, ironicamente, estavam desviados pra mim.

Três casais à mesa. Homens de um lado e mulheres do outro. E de onde eu estava, via os homens de frente. Eu não procurei, não provoquei e nem me interessei. Mas os olhos estavam ali. Não me atraiu, mas estavam ali e eu quis fazer qualquer coisa daquela situação. Desviei o olhar. Olhei de novo querendo fazer um teste. De novo. Olha pra sua mulher, eu pensei. Desvio um, dois, três e quatro. Reprovado em todos os testes. Ele olhando pra mim pensando que era uma chance de sair daquela mesa e eu olhando pra ele com nojo, pensando que ele era alguém que só precisava de uma chance. Um olhar pra passar por cima de tudo. Um par de pernas pra desafiar o respeito. Um sorriso pra jogar tudo pro alto. Um minuto pra esquecer.

Com mais frequência do que gostaria, acredito no amor. Quase sempre ele está num vídeo bonito, num texto emocionante ou num filme norte americano. Quando volto pra realidade, não acredito mais. Não acredito no amor de fila. Não acredito no amor de pizzaria. Não acredito no amor da praça de alimentação, no amor de encontro de casais ou no amor entre aspas de toda semana.

Acredito mesmo é no amor que não tem classicação. Amor que não existe.

Mas que eu quero mesmo assim.



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