Arquivo de junho \30\UTC 2010

Borboletas no estômago.

Parece até que é a primeira vez.
Me arrumo como se quisesse te surpreender pra você pensar que eu sou a mulher mais bonita do mundo, como se nunca tivesse visto minhas versões mais lindas e mais feias. Me equilibro no salto de uma forma impecável, pra você se esquecer que na verdade eu preferia estar descalça.
Faço charme, me atraso e finjo não ligar se você atrasa muito mais que eu. Acredito na sua desculpa, que nem prestei atenção em qual era – você ja tinha usado todas. A chuva, o trânsito, o carro, as obras, o trabalho, a reunião, a roupa que sujou. Era uma dessas.
Me deu um frio na barriga quando vi você chegando. Todo mundo reparou em você, como sempre repara. Os homens se curvam naturalmente e te cumprimentam, abaixam a cabeça e desviam o olhar em sinal de respeito. As mulheres te olham de canto de olho e eu me encho de vaidade porque é comigo que você vai se sentar.
Fiquei nervosa o dia todo. E nos trinta segundos que se passaram desde que você entrou no restaurante até se sentar, quase explodi de nervosismo. Durante o dia todo me preparei. Fiz as unhas, o cabelo, me depilei, escolhi muitas opções de roupa, acabei comprando uma nova, fiz as sobrancelhas, usei um batom que estava com dó de usar pela primeira vez. E nesses trinta segundos me dei conta de que você, na verdade, nem ia reparar.
Pensei nos melhores assuntos para a nossa conversa. Me informei sobre coisas que podiam te interessar. Li seus jornais e acessei os seus sites favoritos. Decorei alguns números, alguns nomes e alguns trechos para causar uma boa impressão. Há tanto tempo não saía para jantar, que estudei um pouco sobre o restaurante e os pratos também. Tudo pra você, no final das contas, conversar comigo sobre cães, sonhos (os que se tem dormindo) e sobre o cheiro bom que tem os amacientes de roupa. E também pra acabar pedindo a comida por mim. Eu sorri e me encantei ainda mais.
E depois de tudo isso, respirei fundo e construí um sorriso sereno e compreensivo. Você esqueceu, mas eu vou fingir que também não me lembro. Hoje nosso casamento completa 30 anos.

Aplicação numa frase.

Uma amiga me deu de presente. Ela disse que tinha uma coisa pra dizer sobre mim e não conseguia lembrar. Quando lembrou, ela me deu. Vomitou um monte de letras confusas, embaralhadas, que você tem que silabar na hora de escrever. Me deu, e a sensação que tive foi de resolver um problema, daqueles que você martela pra resolver durante muito tempo e de repente alguém aparece e diz: é assim. Luiza, você é desassossegada. Então é isso? Desassossegada. É ruim de escrever. Da preguiça. Aposto que você tem também. Escreve aí: desassossegada. Não deu vontade de desistir no meio? Eu sei que deu. Ela não quis explicar. Não tentou, fez parecer que não tinha nada pra ser explicado. Então eu aceitei.
Não deixo de me questionar: ela disse, mas ela não viu. Só sabia que servia. Eu também soube. E aí tem sempre aquela blusa que você ganhou de presente, que até gostou mas nunca soube como usar. E quem te deu diz “não gostou, nunca usa”. Então eu vou usar, pra ela saber como é.
É uma inundação. Não me afogo, vou pra cima e fico surda, como quando você entra embaixo d’água com alguém e tenta conversar. Não dá, você não escuta. É instável, às vezes vem uma onda e você engasga, às vezes a onda da um tempo e você consegue boiar mais um pouco.
Aí você acha um porre essa metáfora estúpida e eu explico de novo: é a roupa errada que você usou o dia todo. É o sapato apertado doendo o pé. É a palavra que você esqueceu e não lembra. É a comida com muito sal. É a pior aula de dança que você já fez. Um soco na cara do professor porque você não tem mais domínio sobre o seu corpo. É um salto quebrado. É uma mancha na roupa às 8h da manhã. Uma coisa nova que já quebrou, não tem conserto e a culpa é só sua. É uma surpresa que não deu certo. É um frio que não passa. É um chuveiro que não esquenta. Uma comida que não esfria. É uma resposta sem pergunta. É uma mentira que você inventou e não consegue mais desfazer.
E é não se dar conta de nada disso. Uma coisa ruim te incomoda o dia todo, mas você não percebe a roupa, nem o sapato, nem o salto quebrado, nem o frio. Você perde a paciência, mas não percebe a comida, a dispersão, a desatenção ou o chuveiro.
É uma superfície surda e acaba ficando  impossível escrever um texto sem deixar bem claro que dessa vez sou eu. Mergulhada no desassossego até alguém, que não foi ela, dizer: volta.

BFF

Já te disse como eu gosto do seu cabelo? Ele fica lindo preso de lado com aquele seu lacinho que você nunca me empresta. Também gosto da sua blusa amarela, e olha que antigamente eu nem gostava das suas roupas. Gosto do jeito que você acende o cigarro enquanto ta dirigindo. Nessa hora você sempre diz que a sua unha “tá péssima”. Não entendo, mas diz. E por sua causa passei a reparar nas unhas das pessoas quando elas estão acendendo o cigarro. Gosto do cheiro que tem o seu carro também. Podia ser doce por causa do vidrinho que você espirra la dentro, mas com o cigarro, fica bom. Irônico, mas é assim. Eu pago um pau pra você estacionando a caminhonete do seu pai. Ainda que, quando você pegue o Celta, seja um desastre. Acho incrível como você consegue ser organizada. Suas roupas, sua maquiagem, seu trabalho, seus horários. E nunca vou me esquecer de você me aconselhando, dizendo que com organização até as unhas ficam melhores. As suas, te juro, nunca estão péssimas. Então deve ser verdade.

Eu sei que é estranho dizer isso assim, a toa. Fica tranquila que não vou me declarar pra você. Essa sou eu, me convencendo e reafirmando pra mim mesma o quanto eu gosto de você. O quanto você é especial. O quanto a gente não consegue ficar longe uma da outra, por mais que tente. Porque, sinceramente, nesse momento eu tô querendo te matar.



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