Aplicação numa frase.

Uma amiga me deu de presente. Ela disse que tinha uma coisa pra dizer sobre mim e não conseguia lembrar. Quando lembrou, ela me deu. Vomitou um monte de letras confusas, embaralhadas, que você tem que silabar na hora de escrever. Me deu, e a sensação que tive foi de resolver um problema, daqueles que você martela pra resolver durante muito tempo e de repente alguém aparece e diz: é assim. Luiza, você é desassossegada. Então é isso? Desassossegada. É ruim de escrever. Da preguiça. Aposto que você tem também. Escreve aí: desassossegada. Não deu vontade de desistir no meio? Eu sei que deu. Ela não quis explicar. Não tentou, fez parecer que não tinha nada pra ser explicado. Então eu aceitei.
Não deixo de me questionar: ela disse, mas ela não viu. Só sabia que servia. Eu também soube. E aí tem sempre aquela blusa que você ganhou de presente, que até gostou mas nunca soube como usar. E quem te deu diz “não gostou, nunca usa”. Então eu vou usar, pra ela saber como é.
É uma inundação. Não me afogo, vou pra cima e fico surda, como quando você entra embaixo d’água com alguém e tenta conversar. Não dá, você não escuta. É instável, às vezes vem uma onda e você engasga, às vezes a onda da um tempo e você consegue boiar mais um pouco.
Aí você acha um porre essa metáfora estúpida e eu explico de novo: é a roupa errada que você usou o dia todo. É o sapato apertado doendo o pé. É a palavra que você esqueceu e não lembra. É a comida com muito sal. É a pior aula de dança que você já fez. Um soco na cara do professor porque você não tem mais domínio sobre o seu corpo. É um salto quebrado. É uma mancha na roupa às 8h da manhã. Uma coisa nova que já quebrou, não tem conserto e a culpa é só sua. É uma surpresa que não deu certo. É um frio que não passa. É um chuveiro que não esquenta. Uma comida que não esfria. É uma resposta sem pergunta. É uma mentira que você inventou e não consegue mais desfazer.
E é não se dar conta de nada disso. Uma coisa ruim te incomoda o dia todo, mas você não percebe a roupa, nem o sapato, nem o salto quebrado, nem o frio. Você perde a paciência, mas não percebe a comida, a dispersão, a desatenção ou o chuveiro.
É uma superfície surda e acaba ficando  impossível escrever um texto sem deixar bem claro que dessa vez sou eu. Mergulhada no desassossego até alguém, que não foi ela, dizer: volta.
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3 Responses to “Aplicação numa frase.”


  1. 2 studiomaxbalarini junho 22, 2010 às 12:58 pm

    Não! É sem explicação mesmo. É algo que só se deve ser e você já é.
    Você e essa sua mania de entendimento versus explicação. É uma desassossegada mesmo!

  2. 3 luisetomaz junho 22, 2010 às 1:00 pm

    E a propósito. Volta!


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