Borboletas no estômago.

Parece até que é a primeira vez.
Me arrumo como se quisesse te surpreender pra você pensar que eu sou a mulher mais bonita do mundo, como se nunca tivesse visto minhas versões mais lindas e mais feias. Me equilibro no salto de uma forma impecável, pra você se esquecer que na verdade eu preferia estar descalça.
Faço charme, me atraso e finjo não ligar se você atrasa muito mais que eu. Acredito na sua desculpa, que nem prestei atenção em qual era – você ja tinha usado todas. A chuva, o trânsito, o carro, as obras, o trabalho, a reunião, a roupa que sujou. Era uma dessas.
Me deu um frio na barriga quando vi você chegando. Todo mundo reparou em você, como sempre repara. Os homens se curvam naturalmente e te cumprimentam, abaixam a cabeça e desviam o olhar em sinal de respeito. As mulheres te olham de canto de olho e eu me encho de vaidade porque é comigo que você vai se sentar.
Fiquei nervosa o dia todo. E nos trinta segundos que se passaram desde que você entrou no restaurante até se sentar, quase explodi de nervosismo. Durante o dia todo me preparei. Fiz as unhas, o cabelo, me depilei, escolhi muitas opções de roupa, acabei comprando uma nova, fiz as sobrancelhas, usei um batom que estava com dó de usar pela primeira vez. E nesses trinta segundos me dei conta de que você, na verdade, nem ia reparar.
Pensei nos melhores assuntos para a nossa conversa. Me informei sobre coisas que podiam te interessar. Li seus jornais e acessei os seus sites favoritos. Decorei alguns números, alguns nomes e alguns trechos para causar uma boa impressão. Há tanto tempo não saía para jantar, que estudei um pouco sobre o restaurante e os pratos também. Tudo pra você, no final das contas, conversar comigo sobre cães, sonhos (os que se tem dormindo) e sobre o cheiro bom que tem os amacientes de roupa. E também pra acabar pedindo a comida por mim. Eu sorri e me encantei ainda mais.
E depois de tudo isso, respirei fundo e construí um sorriso sereno e compreensivo. Você esqueceu, mas eu vou fingir que também não me lembro. Hoje nosso casamento completa 30 anos.
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13 Responses to “Borboletas no estômago.”


  1. 1 Fabiana Duarte junho 30, 2010 às 4:09 am

    claro que eu não resisti e vim ler… quero borboletas nas minhas bodas Pérolas (30 anos de casados)!

  2. 2 Lígia junho 30, 2010 às 11:30 am

    Seus textos são maravilhosos!! Venho conferir sempre!! Já estou viciada!
    Parabéns!!

  3. 3 Gisele Simões junho 30, 2010 às 11:52 am

    Gente! Que lindo! =D
    E eu, que logo de cara já pensei: “como ela sabe dos jornais que ele lê e dos sites que ele acessa?!”
    Que boba, fui eu!

    Adorei e me encantei!

    OBRIGADA!

  4. 4 Sergio junho 30, 2010 às 12:13 pm

    Cara, enquanto ” Bebeto” surfa gritando UHUU! “Paula” mergulha colecionando conchinhas e pérolas. Qualquer maneira de amor vale a pena!

  5. 5 Bruno Reis junho 30, 2010 às 1:12 pm

    que bonito. acompanhei toda a trajetória imaginando uma coisa, mas fui surpreendido no final. e que surpresa boa.
    =*

  6. 6 Priscila Perovano junho 30, 2010 às 1:33 pm

    óóóóówwnnnn, que lindo. adorei começo, o meio e o fim então, nem se fala.

    😉

  7. 7 Adriano junho 30, 2010 às 1:34 pm

    Vim ler de novo, agora sem sno Já te falei o quanto eui gosto de textos com reviravoltas? Pois é. Continue assim, redatora. E mostre pras Tati Bernardis da vida como é que se faz.

  8. 8 guxguxgux junho 30, 2010 às 2:53 pm

    delícia de texto, luiza! mais! :]

  9. 9 Daniel junho 30, 2010 às 2:54 pm

    Conheço uma história bem parecida. Com personagens invertidas.

    Mas pra variar, textão!

  10. 10 Celma julho 1, 2010 às 2:19 pm

    Luíza, seus textos são sempre tão surpreendentes, que a gente fica pensando bastante antes de fazer comentários,o que falar?O que pensar?A opção que nos resta, é nos rendermos ao encanto desses textos “wonderfuls”.

  11. 11 Ricardo julho 6, 2010 às 3:06 am

    Amei Luu!!! Emocionou!

  12. 12 Rafael Motta julho 7, 2010 às 12:41 am

    me lembrou uma música…

    “O resto da paixão, reguei
    Vai servir pra nós
    O doce da loucura é teu, é meu
    Pra usar à sós”

    mt bom. como sempre!

  13. 13 Tathi agosto 6, 2010 às 12:28 pm

    Lindo!
    Surpreendente!
    E incrivelmente emocionante…


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