O homem dos 9 andares

Te conheci assim que me mudei pro prédio novo. Um cara que eu conheci quando fui pegar a correspondência, um cara que eu conheci porque me ajudou a carregar as compras, um cara que arrumou as coisas elétricas lá de casa, um cara que interfonou no meu apartamento porque esqueceu a chave e não tinha como entrar. Você foi todos eles. Te conheci um monte de vezes, e a última foi quando você bateu na minha porta pra perguntar se eu tinha todas as temporadas de uma série antiga baixadas. Nos dias em que pegamos o elevador juntos, eu te conheci de vários jeitos. Sabia que às segundas você estava sempre atrasado e, de repente, eu estava me atrasando de propósito só pra te ver. Eu disfarçava saindo correndo e pegando o elevador quando ele já estava quase descendo pra parecer que eu estava ainda mais atrasada que você – de vez em quando não dava certo e eu perdia o elevador, e de vez em quando eu perdia mas quase conseguia, e te via lá dentro tentando fazer a porta abrir de novo, frustrado porque deu errado. Quarta era o seu dia de mau humor e o seu bom dia virava um sorriso automático sem mostrar os dentes. Em alguns sábados saímos juntos pra jantar. Ou fomos pra um barzinho, uma festa, ou cinema. Eu deixava pra saber o lugar quando cruzava com você no estacionamento e via a roupa que você estava usando. Quando fomos jantar, o seu cabelo estava molhado e você estava usando camisa rosa clarinho. No barzinho era uma camiseta muito bonita com umas coisas escritas que não deu tempo de ler. Na festa não sei, porque só senti seu cheiro no elevador. E era cheiro de perfume de festa. No cinema, eu fiquei brava, porque você tava de chinelo. E você disse que era só um cinema.

As coisas começaram a esfriar depois daquela sua primeira viagem. Eu não emendei o feriado e você simplesmente se mandou. Desceu pro litoral, levou sua prancha, seus 10 óculos escuros que te deixam ainda mais bonito e foi. Você e seus amigos que eu não suporto e que olharam pra mim descaradamente no elevador, no dia em que fomos pra um churrasco, ou pra um aniversário, ou pra qualquer lugar – fiquei com tanta raiva que esqueci de decidir pra onde a gente foi.

Na vez da viagem, te perdoei. Perdoei também quando você saiu sem mim. Perdoei quando esqueceu do meu aniversário e quando deu uma festa e não me chamou. Perdoei a loira natural, a loira platinada, a gordinha bonita, a japonesa que batia na minha cintura e a morena com um pé na baixaria. Quando ia perdoar a ruiva, ela voltou. E entrou no meu elevador, assistiu minhas séries, deu fim aos seus chinelos, atrasou ainda mais suas segundas-feiras e levou embora o mau-humor das quartas.

Quis conversar e acabar com tudo de vez quando nos encontramos naquele final do dia. Eu chegando tarde do trabalho e você chegando tarde da sua ruiva. Nove andares intermináveis e o elevador ficou maior do que costumava ser. Eu olhei pra você em todos os segundos e você pareceu não me ver. Pensou nos seus amigos idiotas, na nova série que estava baixando sem mim, nas suas viagens e na sua ruiva. Acabei com tudo de vez e você não ficou sabendo. Conversei com você por horas e no final enterrei nossa conversa no mesmo lugar onde estavam enterrados nossos cinemas, nossos encontros, nossos episódios pendentes e tudo aquilo que você não conseguiu ser. Troquei o elevador pelas escadas. Troquei você por mim.

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6 Responses to “O homem dos 9 andares”


  1. 1 Tiago Bezerra agosto 25, 2010 às 7:28 pm

    Eu preciso falar que está sensacional de novo, e de novo, e de novo…?

  2. 2 Tiago Bezerra agosto 25, 2010 às 7:30 pm

    Já que vc falou pelo gtak que precisava, então lá vai: PERFEITO!

  3. 3 Luise agosto 25, 2010 às 7:42 pm

    Um segundo a mais, uma outra roupa, um outro perfume, ou um segundo a menos. Foi por pouco tenho certeza.

  4. 4 Gaby agosto 25, 2010 às 7:57 pm

    Arrasou, vc disse tudo em poucas palavras. Tudo o que sempre acontece com todas nós mulheres, só precisamos trocá-los por nós mesmas como vc mesma disse.

  5. 5 Tathi agosto 26, 2010 às 5:03 pm

    Amei!
    Realmente PERFEITO!

  6. 6 celma agosto 26, 2010 às 5:46 pm

    Muito bom!!!Como sempre, um relato do amor, do nosso cotidiano escrito de maneira inconfundível, como só vc sabe escrever. E o título?melhor ainda!!!Adorei.


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