83 e contando

Era rotina. E era só dele. Era a companheira, não mais leal e nem mais fiel, mas era de quem ele não abria mão. Não podia ser assim tão difícil de ser entendida. Horários são para serem seguidos. A hora de acordar, a hora de almoçar, a hora de pegar o jornal na frente de casa. Objetos têm o seu lugar. As comidas têm sabores que devem ser respeitados, o queijo tem o seu ponto certo, o pão tem uma cor exata, o sal tem um limite.

Já tinha algum tempo que tudo estava meio fora do lugar. Nem sempre os chinelos o esperavam na posição correta. Muitas vezes nem mesmo estavam ali. Perdiam-se pela sala, se separavam, um no banheiro outro embaixo do móvel do corredor. Mas que raios, agora criaram vida própria? Os cheiros mudaram. Todos eles. O da comida desapareceu. O das roupas ficou confuso, além de elas não estarem mais alinhadas, ou combinando ou sequer passadas – como foram a vida toda.

Naquele dia não foi diferente. E estava tudo explícito. Quando acordou, viu que acordou errado. Não havia barulho de panelas na cozinha para dizer: acorde. A roupa de cama estava vencida, e ele nunca pensou na roupa de cama ao acordar. Nem ao acordar e nem em nenhum outro momento. O telefone tocou e não tinha ninguém para atender. Nunca precisou ouvi-lo tocar tantas vezes, e nunca soube como era irritante.

Era um deles. Algum filho, algum sobrinho, algum neto. Não fazia diferença, porque eles estavam cada vez mais iguais. Perguntavam: está tudo bem? E nunca estava. Tem sido difícil, não me acostumo com a comida, acho que não duro muito, vocês não me visitam mais, está doendo um outro lugar aqui na perna direita, a moça nao sabe fazer as coisas direito e é, mandei embora mais uma, o sono está complicado, o cachorro acho que não vai bem, esse portão emperrou de novo, os vizinhos estão barulhentos. E sempre diziam: mas o senhor está reclamando demais. Então agora passou a dizer que sim, estava tudo bem – enquanto sentia a fisgada no tornozelo.

Colocou o telefone no gancho, sem ver que não colocou direito – e ele ficaria assim por três dias. A roupa confusa, a blusa que se bobear era do pijama, com a calça que já durava duas semanas, o chinelo com meias e o cabelo despenteado. Saiu e caminhou, devagar, até a feira. Atravessou, devagar, todo o caminho até a barraca do pastel. Procurou se encaixar, mais devagar ainda, no meio de tanta gente, pensando que aquele lugar já não era mais o mesmo e que as pessoas estavam cada vez mais mal educadas.

Um de queijo, disse ao menino. Era o primeiro dia do menino, que estava com pressa em atender, alcançou o pastel e entregou, meio torto e bem desajeitado, com os guardanapos embolados, correndo para dar atenção a um homem gordo e que parecia ser muito rico. Pegou se lamentando, ajeitando o pastel com todo o cuidado. Não demorou muito e encontrou orégano. Orégano no pastel de queijo? Não, não pode. Mostrou ao menino, que olhou com desdém, trocou o pastel e entregou a ele, com pressa mais uma vez. Esse estava frio. Tentou chamar o menino, que não o viu, ou fingiu não ver. Psiu, menino. Nada. Aqui, menino! Nada. Juntou seu fôlego para dizer um pouco mais alto, com sua voz rouca: Mê vê um de presunto. Colocou o pastel frio em cima do balcão. Veio o de presunto. Colocou, lentamente, o de presunto junto ao pastel de queijo, frio. Um de palmito, por favor. Juntou aos outros. De frango, tem? De carne também. Enfileirou os pasteis lado a lado no balcão, e as pessoas começaram a olhar. Por fim, disse, já tendo a atenção do menino: De quê mais você tem aí? Faltou o de camarão. Juntou todos, intocados, limpou os dedos e foi embora, com toda sua calma e lentidão.

O menino gritava. Pensou em correr, estava sem ação. Chamou de louco. Todos olharam em volta e diziam “deve estar caduco“, “…gagá, pode apostar“. Todos interromperam os seus pastéis, para ver o velho e o balcão. O homem gordo e rico, vendo o desespero do menino, aproveitou para reter a atenção. Tirou o dinheiro e disse, Tome aqui. Cuidado com esses tipos, garoto!

E eles voltaram a comer.

Ouvindo tudo o que diziam, ja que andava bem devagar, ele se fez de surdo. Mas pensava, sozinho, que isso já era demais. Me deram um resto de vida, iniciaram minha contagem regressiva, decidiram que não posso mais escolher, me declararam no fim da linha. Se consideram mais espertos, ignoram minha vida inteira e vejam só, esperam que eu me adapte à falta que ela me faz. Ela, que colocava meus chinelos no lugar, que trocava os lençóis, que cuidava das minhas roupas e que deixava vocês bem longe de mim. Já tenho muito com o que me conformar. É demais que queiram tirar também o meu pastel.

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4 Responses to “83 e contando”


  1. 1 Ricardo setembro 14, 2010 às 3:58 am

    E você acha que você passa despercebida? Você é ouro.
    Lendo esse texto não precisa de quindim. O sim é seu.
    Pode largar tudo pra conseguir coisas novas.
    Pode ficar e construir uma carreira com rotinas. Mas só assim terá o privilégio de não se adaptar à falta que alguém te faz.

  2. 2 celma setembro 14, 2010 às 1:51 pm

    Quantos anos você tem?Qual a sua idade?Que texto é esse?muito comovente,fiquei parada diante do computador pensando…é tão bem escrito, que me vi levando os pastéis.

  3. 3 Fabiana Duarte setembro 14, 2010 às 4:58 pm

    sem palavras. aliás, vc tem mesmo esse costume. deixar a gente sem palavras.

  4. 4 Tarcísio setembro 14, 2010 às 5:08 pm

    Oxi, se esse velho daqui a uns tempos não for eu tá bom demais.


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