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Está proibido Frank Sinatra como trilha sonora

Eu vou dizer logo: acho sacanagem. Acho mesmo e é bom que todo mundo fique sabendo.  Então é o quê? Todo mundo é sacaneado na cara dura e tem que ficar a vida toda se fazendo de superior? Por favor. E antes que levantem a língua para dizer que é inveja, também digo logo que nem é pela beleza. Tá certo que não me cairia mal um desses, mas estamos falando de outra coisa. Estamos falando aqui de uma ousadia inconveniente que entra sem pedir licença, sem bater na porta, sem precisar sorrir e sem perguntar se o lugar está ocupado.

E aí apronta o diabo, me deixa falando sozinha sem saber onde a conversa terminou, volta quando eu já tinha conversado um milhão de outras conversas, e faz isso numa quantidade de vezes que não sei dizer – porque não tem fim. E eu continuo hipnotizada. E conversando com você como se nunca tivéssemos conversado antes – ou como se a conversa anterior nunca tivesse sido interrompida. E isso é o quê? É sacanagem. Não sei se a culpa é sua, do seu pai, da sua mãe ou de Deus. Mas é sacanagem.

Então, sem olhar pra você, te peço encarecidamente e sem me preocupar se estou sendo doce: leve esses olhos azuis pra longe de mim.

Não

Por que não? Podia dizer uma lista de porquês não. Uma, duas, dez listas. Frente e verso num papel A1. E se der pra ser por e-mail, te mando um pdf recheado. Porque não chegou a hora. Porque ele não é o que eu imaginava. Porque é um absurdo. Porque não sou disso. Porque não é o que eu estava pensando. Porque está tudo errado. Porque pelo amor de Deus, só eu estou vendo que isso é uma furada? Porque convenhamos, não vou me rebaixar a tanto. Porque não preciso disso. Porque é exatamente aquilo que eu disse que nunca faria. Porque já passei dessa fase. Porque se nem nessa fase eu fazia uma coisa dessas, não é agora que vou fazer. Porque tenho mais com o que me preocupar pra ter que arranjar uma dor de cabeça desse tamanho. Porque para pra pensar: preciso? Não preciso. Porque tem mais coisas entre o céu e a terra. Porque posso perder uma oportunidade de fazer o que é certo gastanto meu tempo com uma besteira dessas. Porque ele tem que ser mais. Porque eu não nasci pra isso. Porque eu quero mais. Porque veja bem: você acha mesmo que é suficiente? Porque tudo bem, eu concordo, não me faria tão mal. Porque é lógico que eu estou aqui até agora porque espero do fundo do meu coração que a perda de tempo não seja tão grande. Porque sabe como é, foram umas taças de vinho e tudo bem, um talvez, um pode ser, um quem sabe. Por que não, né?

Pick one

Para o rapaz da portaria que abria a porta pra ela sair todos os dias, ela era a menina sempre atrasada – ou que parecia estar. Pro gato cinza que a via do outro lado da calçada, era uma blusa de lã boa pra enroscar as unhas. Assim que virava a esquina, para o senhor árabe da primeira loja era alguém que sempre olhava a vitrine de doces mas nunca entrava. E ele sempre ajeitava os doces um pouco melhor pra ver se dessa vez ela se convencia.

Descendo para o metrô, a senhora que pedia roupas e calçados numa plaquinha só pensava no casaco que ela tirava assim que saia do frio da rua – o casaco que ela poderia muito bem deixar como doação. A moça da bilheteria sabia bem quem era ela: alguém que comprava uma viagem por vez para ter troco em moedas.

Ninguém tinha dúvida. Nem o rapaz, nem o gato, nem o árabe, nem a senhora e nem a moça da bilheteria. Mas bastou dar de cara com ele no vagão do metrô em mais um acaso infeliz pra que ela, a atrasada, a blusa de lã, a indecisa pelos doces, a dona do casaco e a espertinha das moedas, começasse a se perguntar de novo: e pra você, quem sou?

Ele fez uma cara de surpresa, abriu um sorriso e disse um oi enorme. Ela já tinha sido a menina dos sapatos coloridos, a menina que tinha a risada abafada, a que descobriu seu fanatismo por balas de caramelo, a que consegue digitar muito rápido com apenas dois dedos e a que o fazia rir enquanto cozinhavam. Nada era suficiente, então ela sempre tentava ser mais uma de si mesma. Já estava se perdendo no meio de tantas e, dessa vez, escolheu uma diferente: foi a que não sorriu, não se surpreendeu e respondeu um oi curtinho, procurando um lugar pra se sentar e ler o jornal. Nesse exato momento ele se lembrou de todas. E ela se esqueceu dele.

O maior dos canalhas

Vai, pega esse pão que nem é de hoje e joga no chão virado para baixo. Me faz perder o ônibus, faz cair a maior chuva do ano no dia em que eu escolhi uma roupa branca e curta. Desliga meu despertador, quebra meu carro e me faz esquecer a carteira na hora de pagar a conta. Desencontra meus encontros, perde meus documentos, me faz sentar no molhado sem perceber e extravia minha bagagem. Mancha minha roupa pela manhã, arrepia meu cabelo, quebra minha unha e descasca meu esmalte vermelho. Corta minha internet, faz meu computador travar na melhor parte da conversa e perde meu texto que está quase no fim.

Mas devolva aqui meus suspiros, os olhares mais pra dentro que já vi, os guarda-chuvas divididos, o edredon que sempre esquenta, o prato que é sempre melhor, as mordidas que quase machucam e os dias mais divertidos.

Querido Murphy, você é um sacana.

Estamos entendidos?

Eu não me arrumo pra elas. E me sinto desrespeitada quando insistem em repetir isso pela 9382ª vez em alguma matéria de revista, programa de televisão ou conversa de bar. Porque parece que virou uma verdade universal.

Então presta bastante atenção: não é nada disso.

Odeio passar a tarde toda em salão, mas fico o dia inteiro no meu salão caseiro e particular tentando acreditar que vai fazer alguma diferença. Mas é pro seu inconsciente dar o ok quando você passar a mão no meu cabelo. Invento um esfoliante maluco pra minha perna que insiste em não se entender com os pelos, só pra sua mão não perder o foco quando passar por aqui como quem não quer nada. Se somar tudo o que estou vestindo, dá uns bons meses pagando fatura de cartão – e olha que não vou reclamar e nem achar ruim de dividir a conta no final da noite. Eu sei bem que você não vai saber responder a uma pergunta do tipo “qual maquiagem eu estava usando ontem?”, mas eu perco uma partezinha de vida na frente do espelho porque sim, faz diferença.

E depois de tudo, me empenho pra não deixar todo esse ritual fazer eu me atrasar. Até me adianto pra você pensar que sou linda assim mesmo, sem esforço. Mas do fundo do coração espero que você reconheça e me dedique os devidos méritos quando encostar o nariz no meu ombro e reconhecer a lembrança de um cheirinho de hidratante.

Você desmarcou essa merda desse jantar e eu me sinto uma idiota com esses cachos brilhantes e comportados, a perna lisa, a roupa quase vestida e a maquiagem já feita. Não tem “ela” que assuma a culpa por isso. Era tudo pra você, e sua desculpa foi tão boa que não posso acreditar que vou fazer tudo de novo da próxima vez.

Pedacinhos

Com papel de cartas eu ficava perdida.
Ainda assim, consegui levar a sério e não consigo me lembrar bem como foi que consegui fazer uma pasta tão cheia e que tinha até algum tipo de organização. Mas era inútil, ninguém mandava cartinha em papel de carta. Eu não mandava. E também nunca recebi nenhuma.

Acho que começou assim.
Minha coleção de todas as coisas.
Não termino nenhuma delas, mas acho que a graça de toda coleção é nunca ter fim. Tenho uma que saiu do meu controle. Ganhei tanta contribuição que de repente eu tinha mais de 350 postais publicitários. Desisti.
Tenho uma que é bonita. De coisas de casamento, mesmo sem ter certeza de que quero casar. Coleciono tudo numa pasta de computador e em links salvos na internet. Tenho também uma coleção de uma coisa só. É uma vespa. E é a coleção que mais gosto.

Outro dia achei você. E comecei a colecionar seus pedaços.
Tenho um pedaço seu que abriu a porta do carro pra eu entrar. Um pedaço que eu adoro cantou vinícius bem baixinho. Outro pedaço me fez um desenho. E tem também um que me ligou de novo e de novo só pra saber se estava mesmo tudo bem (depois de alguma coisa que eu já esqueci porque não guardei nenhum pedaço).

Tem uns pedaços meio tortos, desses que a gente guarda e não sabe nem pra quê, mas nunca consegue se desfazer porque parece que os pedaços bons fazem mais sentidos se esses estiverem junto. Como aquele que tem sua cara de mau, ou o que tem uma conversa inteira que quase virou uma discussão. Gosto dele. Até os pedaços em que você se hipnotiza por uma televisão qualquer que está ligada em algum lugar. Esses ficam no fundo, pra eu não ficar nervosa.

Tem um pedaço grande cheio de outros pedacinhos. É tipo um mosaico. Banho gelado, vento na janela, praia, música boa, um crédito infinito de massagens, muita escadaria e bateção de perna. Como todo mosaico, ele não faz sentido. E é por isso mesmo que essa coleção é tão boa: ela não faz sentido algum.

Quando penso no que pode acontecer, lembro sempre.
Não posso colecionar você.
Mas esses pedacinhos são meus.

Amarelo quindim

Tudo parecia certo. Ela arrumou a sala toda. Porque tinha que ser assim. Escolheu aquele dia numa inspiração que veio de uma revista, de um site, de algum link que alguém mandou e ela salvou nos favoritos da vida. Tinha tudo. Amarelinhos, luzes de natal no meio do ano, uma comidinha, o vinho que ela aprendeu a beber. E ele.

Marcaram às sete e já estava tudo pronto. Se deitou no sofá e se encheu de perguntas, já sabendo a resposta e perguntando só pra se satisfazer. Como quem vê um dia ensolarado e pergunta “tá sol, né?”. Se perguntou se era ele. Se perguntou se tinha chegado a hora. Se perguntou o que é mesmo que ela queria. E se respondeu.

Sempre quis que fosse alguém que soubesse cozinhar. Sempre quis que tivesse os melhores abraços, que fizesse o cafuné mais exato, que tocasse violão e tivesse uma voz grosseira e linda. Quis que soubesse tirar fotos, pra ela poder guardar o jeito como ele via o mundo. Quis que soubesse fazer massagens fabulosas e disponíveis a todo tempo, pra curar cada mundo que ela carrega nas costas – porque ela sempre ia carregar algum. Quis que fosse bonito, pra ela perder o fôlego pro resto da vida.

Ele chegou. Eles jantaram. Eles riram. E em certo momento, ele perguntou: você sabe o que é que você quer? E ela sorriu, esperta, porque essa ela sabia responder. E repetiu.
Repetiu a comida, os abraços, o cafuné, o violão, a voz, as fotos, as massagens, a beleza. Olhando pra ele e pensando em toda a certeza daquele dia.

E ele, com um sorriso torto, disse: Eu só quero que seja você. Tá?

E ela viu a certeza ir embora. E entendeu que faz parte do amor não ter certeza de nada. E ser feliz assim.


O que tem aqui

Diálogos, monólogos, conversas, crônicas, histórias malucas e talvez, quem sabe, até reais, de uma cabeça bem esquisita.

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