Arquivo de abril \14\UTC 2011

Pick one

Para o rapaz da portaria que abria a porta pra ela sair todos os dias, ela era a menina sempre atrasada – ou que parecia estar. Pro gato cinza que a via do outro lado da calçada, era uma blusa de lã boa pra enroscar as unhas. Assim que virava a esquina, para o senhor árabe da primeira loja era alguém que sempre olhava a vitrine de doces mas nunca entrava. E ele sempre ajeitava os doces um pouco melhor pra ver se dessa vez ela se convencia.

Descendo para o metrô, a senhora que pedia roupas e calçados numa plaquinha só pensava no casaco que ela tirava assim que saia do frio da rua – o casaco que ela poderia muito bem deixar como doação. A moça da bilheteria sabia bem quem era ela: alguém que comprava uma viagem por vez para ter troco em moedas.

Ninguém tinha dúvida. Nem o rapaz, nem o gato, nem o árabe, nem a senhora e nem a moça da bilheteria. Mas bastou dar de cara com ele no vagão do metrô em mais um acaso infeliz pra que ela, a atrasada, a blusa de lã, a indecisa pelos doces, a dona do casaco e a espertinha das moedas, começasse a se perguntar de novo: e pra você, quem sou?

Ele fez uma cara de surpresa, abriu um sorriso e disse um oi enorme. Ela já tinha sido a menina dos sapatos coloridos, a menina que tinha a risada abafada, a que descobriu seu fanatismo por balas de caramelo, a que consegue digitar muito rápido com apenas dois dedos e a que o fazia rir enquanto cozinhavam. Nada era suficiente, então ela sempre tentava ser mais uma de si mesma. Já estava se perdendo no meio de tantas e, dessa vez, escolheu uma diferente: foi a que não sorriu, não se surpreendeu e respondeu um oi curtinho, procurando um lugar pra se sentar e ler o jornal. Nesse exato momento ele se lembrou de todas. E ela se esqueceu dele.



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