Arquivo para julho \30\UTC 2009

Sua sorte é o cheiro.

Hoje eu vou. Ah, quer saber? Vou mesmo. Não quero saber o que vocês acham, não quero ouvir o que ninguém tem a dizer, nem nada. Quer saber? Vou e ninguém vai nem ficar sabendo. Quando perceberem, já fui. Eu vou, vou sem nem pensar no que é que eu tô fazendo, nem aí pra ele. Vou porque me deu na telha, e é isso mesmo, ele fez o que fez e eu tô indo lá fazer o que vou. E também não te interessa, e se quer saber, não interessa nem a mim. Porque eu só vou. Depois, não sei. Vai que rola, sei lá. Não ligo. E amanhã, nem lembro. Nada de telefone, de conversinha, torpedo ou qualquer merda que não significa nada. É isso mesmo, e se não gostar, um beijinho. Não tem nada aí pra mim que me faça perder um filminho meia boca que passa na tevê aberta e que me faz chorar. E é por isso mesmo que te troco por ele sem pensar, pra ficar embaixo das cobertas  chorando por amores que nunca vivi. Você, por um filme. Isso aí. Tá pensando o que? Não, nem fala, porque eu não ligo. Eu já esqueci como você fala, até. Mas ainda nem ligo. Só ligo para o que me faz chorar. Ah, quer saber? Desisti. Vamos desmarcar?

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Hora de desligar a tevê.

Ela estava acostumada. Ele fingia que não escutava o que todo mundo dizia, fingia que não gostava da comida pra não parecer que ela tinha vencido e fingia que não ligava para o presente para fugir do amor. Ela, fingia que acreditava que ele não ouvia e repetia duas, três vezes. Fazia a comida sempre um pouco melhor ou caprichava nos caprichos daquele velho, só porque sabia que no fundo ele não trocava aquilo por banquete nenhum nesse mundo. Mas ela não gostava muito quando via que ele fugia do amor. Não o seu, porque dali já não dava mais para fugir. Mas o amor deles. E naquela época do ano, como há uns anos não acontecia, estavam todos ali, todos os seus amores. Ela se perguntava sempre se algum dia alguém ia perceber que aquele tanto de amor que ela dava era, em partes, pra que ninguém percebesse que faltava o amor do outro lado. As meninas cresceram, e as novas meninas estão quase crescidas, e quase não existe mais tempo, e elas quase não aparecem. Quase não se lembram. Os meninos, você sabe. Sempre os meninos. Os seus meninos e os meninos deles. E ainda assim, pra todos eles, o que ficava era a ausência. E a mágoa. E o rancor. Mas de tudo isso da pra fugir. Só não da pra fugir do amor. E nem da falta dele.


O que tem aqui

Diálogos, monólogos, conversas, crônicas, histórias malucas e talvez, quem sabe, até reais, de uma cabeça bem esquisita.

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